FICÇÃO

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Monstros medonhos

VINICIUS JATOBÁ | ED. 209 | JULHO 2013

 

Adeus, grande arte, foi o que Inácio pensou: e logo começou a catapultar monstros verdes por cima da Grande Muralha.

Mas antes veio a conversa. E depois a conversa após a conversa. A primeira conversa também foi uma Grande Muralha: ninguém quer ler o que você escreve, disse o célebre editor. E Inácio capitulou, e voltou de metrô até Vicente de Carvalho lendo as notas no manuscrito surrado: rabiscos vermelhos, comentários ferinos. Ao lado de um personagem mecânico três grandes pontos de exclamação. Inácio passou pela banca de jornal. Entrou em casa e entrou direto no quarto e deitou na cama. Estava desolado: se ninguém se interessa pelo mecânico e pelo padeiro e pelo boticário e pela professora de português e pelo policial aposentado, ninguém se interessa por Inácio Reis. Descobriu que Inácio Reis não existia.

Saiu na rua e andou até a esquina da Jucari e então seu pai sujo de graxa estava lá no boteco com o tio Frederico e o pai logo disse senta e bebe, e sentou e bebeu, e Inácio abriu seu coração. O pai ficou medindo o tio, o tio encarou o pai, e quando Inácio terminou a trama e a ladainha o pai perguntou e o que você fez com ele depois desse desaforo. E antes de Inácio dizer qualquer coisa tio Frederico foi dizendo que tinha que ter pego o folgado, puxado o cangote do corno e dado muita porrada na cara, e o pai disse com certeza, e depois pegava a caneta vermelha e furava os olhos. Inácio sorriu, mas seguiu triste. E o pai então disse casa sem parede não tem teto filho. E tio Frederico disse muito bonito isso que você disse Jorge mas Inácio vai por mim, dá é porrada nele.

Mas aquela recusa do editor célebre era muito para Inácio, que estava velho, que estava cansado, e seus 27 anos pesavam. Nos dias seguintes ficou na cama por mais tempo que o necessário, e não conseguia ler. O que leu: o livro de um colega. Nasceu também em Madureira e Vaz Lobo, e tinha um livro. Mas o livro não se passava em Madureira, nem em Vaz Lobo. Quando o avô levava no livro o neto para ver os peixes em Copacabana Inácio reconhecia os peixes do aquário de Madureira. Vermelhos, animados. Eram eles: os peixes de sua infância. Risca onde está escrito Edgard Romero e escreve avenida Atlântica, risca onde está Cine Madureira e escreve Cine Odeon. Risca os nomes todos e vai riscando até furar o papel, até marcar a mesa onde se escreve, até estragar a caneta e sujar de tinta todos os papéis e personagens e estórias.

Inácio pegou um caderno novo, o único que não enterrou no fundo do armário. Começou logo a escrever que um homem célebre andava pela Monsenhor Félix de madrugada e de repente era atacado, e cães agitados latiam e latiam tanto que pareciam gargalhar: o homem era vítima do assassino da faca, que cintilava, e atravessava o corpo, e que logo passou na terceira página escrita no caderno a ser uma caneta vermelha. O homem célebre era cegado pela caneta. Depois, o assassino da caneta escrevia contos de mecânicos no corpo gelado das vítimas. Cada corpo de vítima encontrado tinha um personagem diferente escrito na pele: ora estórias de professoras de português, mas também de padeiros, e de boticários. As estórias eram publicadas nos jornais pelo sensacionalismo. O assassino da caneta vermelha finalmente tinha sua obra editada.

Mas a raiva do assassino da caneta vermelha era distinta naquela madrugada: sua mão estava esverdeada. Com facilidade arrancou o tampo da cabeça do homem célebre. O cérebro apetitoso e lustroso, e os latidos dos cães eram gemidos pavorosos de fome, e seres humanos corriam de um lado ao outro fugindo de criaturas asquerosas e vorazes. Uma horda de zumbis. Inácio percorreu correndo as ruas do bairro: metalizadas, cibernéticas, digitais, modernosas, estavam todas sujas de sangue ressecado. Apenas a rua Jucari se mantinha como Inácio a conhece: o terreno baldio, os postes de luz, os muros baixos.

Sentado no boteco estava tio Frederico, bebendo. Zumbis chegavam perto e cheiravam o tio e se olhavam confusos. O tio fez um aceno, e Inácio se aproximou. Os zumbis também não se interessaram por Inácio. O tio Frederico logo disse não se preocupe que eles não comem a nossa família porque nós somos os heróis dessa estória que você está escrevendo. Inácio sentou ao lado do tio, e ficou sabendo que estava em Irajá do ano 2389. Tenho certeza que essa merda toda começou, disse o tio Frederico, quando o Alberto da barraca de sanduíche decidiu trocar a maionese.

Inácio pensou em terminar a estória, largar o caderno, mas tio Frederico pediu que esperasse um pouco mais. Inácio abriu novamente o caderno e pensou adeus, grande arte. E então um corpo caiu bem no meio da rua Jucari. Os zumbis saltaram sobre o corpo, esfomeados, e logo em seguida mais corpos caíram do céu. Eles vêm lá do outro lado da Grande Muralha que o governo levantou para isolar a Peste Suburbana, Inácio. E o tio contou o que Inácio tinha perdido: quando os zumbis apareceram os cientistas afirmaram que era consequência do gene suburbano. Linhas de trem e de metrô foram implodidas, avenidas destruídas. A Grande Muralha entre a Zona Sul e o subúrbio levou trinta anos para ser levantada, usando os próprios suburbanos como trabalhadores escravos. E agora todo ser humano da Zona Sul que desenvolvesse manchas verdes no corpo era catapultado por cima da muralha para cá.

Esses cientistas são uns merdas, disse o pai do Inácio, chegando na mesa. Onde você estava perguntou o tio Frederico e o pai disse estava lá no banheiro parindo um zumbi. Gargalharam, e até uns zumbis lambendo uma ossada aos nossos pés deram um arroto feliz. A rua estava abarrotada de zumbis, e a chuva de humanos tinha acabado. Cada vez tem menos suburbanos na Zona Sul, disse o tio.

Inácio abriu a mochila e tirou dela pistolas e disse vamos livrar o mundo dos zumbis, pai. Vamos sim claro, disse o pai, mas deixa primeiro acabar essa cerveja filho, e aí a gente tira um cochilo, e depois sai por aí salvando o mundo. Seguiram bebendo, e os zumbis começaram a se dissipar, gritando. É um inferno, nunca dormem, ficam gemendo, deve ser muito ruim ser zumbi, disse o pai. Não jogam porrinha, nem sinuca, não sabem mais o que é o Flamengo, é uma tristeza. E o tio Frederico disse vamos é implodir essa Muralha maldita, e levar os zumbis para praia. Eles são tão gente boa.
E Inácio deu a primeira gargalhada em dias, e feliz fechou o caderno.

Vinicius Jatobá é escritor e crítico literário. Seu primeiro livro de contos, Apenas o vento, será publicado no segundo semestre pela Editora Bateia.


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