ARTE

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Tributo à cultura popular

Pesquisador e violeiro, Ivan Vilela lança livro sobre o universo caipira

LAURO LISBOA GARCIA | ED. 216 | FEVEREIRO 2014

 

Ivan Vilela se apresenta em Goiânia em julho de 2013: a viola foi feita pelo luthier Vergílio Arthur de Lima, de Sabará

Ivan Vilela se apresenta em Goiânia em julho de 2013: a viola foi feita pelo luthier Vergílio Arthur de Lima, de Sabará

Compositor, arranjador, pesquisador e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) na cadeira de viola caipira, história da música popular e percepção musical, Ivan Vilela, paralelamente à carreira de músico e instrumentista, vem contribuindo de forma incisiva para a valorização do instrumento que assumiu em 1995, bem como todo o universo que o envolve. Em 1997, quando lançou o primeiro de uma série de elogiados discos de viola, Vilela começou uma ampla pesquisa desse universo caipira, que transformou em tese de doutorado em 2007 e agora ganhou edição em livro: Cantando a própria história – Música caipira e enraizamento (Edusp).

No prefácio, o professor Alfredo Bosi sugere que o livro “deve ser lido como um generoso tributo à cultura popular brasileira”. Vilela introduz o leitor ao universo da viola apresentando a história do instrumento, desde as origens árabes e ibéricas e as variações de modelos e afinações. Em seguida, com citações de vários clássicos importantes da música caipira, o autor analisa todo o histórico e as transformações por que passou a viola desde que chegou ao Brasil na época do Descobrimento – das raízes, passando pela urbanização diluída no mercado, até uma “volta às origens”.

A ideia toda desse trabalho vem do doutorado feito na Psicologia Social da USP sob orientação da Ecléa Bosi, que trabalha com memória oral. “Fiz história antes de estudar música, não cheguei a terminar o curso, mas o que sempre me incomodou foi a falta de a história ser contada pela perspectiva do povo pequeno, que é um povo com o qual sempre lidei”, diz Vilela.

A segunda metade do livro é composta de entrevistas com personagens desse “povo pequeno”, migrantes que contam suas memórias a partir de um questionário comum a todos. Muitas lembranças são associadas à música que se ouvia no rádio, veículo que Vilela considera de fundamental importância na difusão da música caipira e de viola a partir dos anos 1920. Centrando sua tese nas figuras do violeiro e do migrante, o pesquisador contesta teorias de estudiosos como a do sociólogo Waldenyr Caldas, especialmente na questão da radiodifusão, bem como a da popularização do disco, que teriam deturpado essa música que vem do sertão.

Tipos de viola caipira: viola de Queluz, Minervino e viola do Zé Coco do Riachão

Tipos de viola caipira: viola de Queluz, Minervino e viola do Zé Coco do Riachão

“Quem faz música caipira nunca entrou no mérito da questão musicológica, porque quem escreveu sobre isso normalmente foi historiador, cientista social, sociólogo. Há algo depreciativo na mídia sobre esse tema”, diz. “É um absurdo falar que esse tipo de música foi transmutada, prostituída a partir do disco. Não foi. Na realidade o disco e o rádio foram grandes armas de divulgação.”

Na questão da identidade nacional e do regionalismo, ele levanta, entre outras questões, o preconceito com o linguajar do caipira e uma série de características que são tratadas com desdém pela elite urbana. “Com o advento da República, em fins do século XIX, o ideal positivista fez com que toda a tradição oral ligada à escravidão e às relações patrimoniais fosse jogada fora”, diz o pesquisador. “E antes, quando a nossa cultura popular estava sendo criada, nos séculos XVIII e XIX, a elite estava olhando para fora, tentando ser europeia. Ela não presenciou esse processo sócio-histórico e ainda hoje vê essa cultura e não a reconhece como sua.”

Vilela alerta para o alto grau de complexidade das composições, que se nota a partir da transcrição para a partitura. “Como é uma música que está presa ao texto, as divisões de tempo são totalmente atípicas, muito complicadas, difíceis mesmo de ler”, diz. São outros parâmetros, diferentes da sofisticação harmônica que se valoriza dentro da MPB, segundo ele. “As texturas construídas em música folclórica, em música caipira, a gente que estuda não é capaz de fazer. Há outras sofisticações que nunca foram levadas em conta, principalmente por causa da depreciação sócio-histórica.”

Há um CD acompanhando o livro, Paisagens, que o violeiro lançou em 1998, interpretando uma maioria de composições próprias. O refinamento de seu trabalho, desde esse disco complementar ao livro, representa tanto uma abertura como a manutenção de um ideal dentro do universo caipira. O autor diz que a mensagem subliminar que há no livro é a defesa da cultura popular como assunto de segurança nacional, como ele vê nos países desenvolvidos. “Todo esse sentimento de nação, de coletivo, de povo, que existe nesses países, vem de pensar conjuntamente, e não individualmente como fazemos no Brasil”, observa. “Isso está ligado à cultura popular.”


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