ARTE

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A arte total de um mestre oitocentista

Apelidado de “homem-tudo”, Araújo Porto-Alegre procurou definir as bases de uma escola brasileira de arte

MARIA HIRSZMAN | ED. 218 | ABRIL 2014

 

Mata virgem, c.1850-1860, grafite e aquarela sobre papel

Mata virgem, c.1850-1860, grafite e aquarela sobre papel

Figura central do projeto de constituição de uma cultura nacional no Brasil oitocentista, Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806 – 1879) é – paradoxalmente – vítima de uma perversa tendência brasileira de perpetuar mitos e optar pelo caminho mais fácil de pesquisa. Diante da dificuldade de reunir sua obra dispersa, e de entender como alguém pode ao mesmo tempo ser neoclássico e romântico, artista, literato e homem público, pintor de história e defensor da aquarela e do estudo da natureza tropical, diversas gerações se contentaram em dar-lhe a fama sem problematizar seus feitos, iluminar mais a fundo suas contradições ou observar de perto sua produção. Tanto que só agora, mais de dois séculos após seu nascimento, o Barão de Santo Ângelo (como também era conhecido) ganha sua primeira exposição individual, na sede do Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro.

Articulada em torno de um álbum do artista que foi adquirido pelo Instituto em 2008, a mostra Araújo Porto-Alegre: singular & plural conta ainda com obras cedidas por uma dezena de instituições nacionais, como Biblioteca Nacional, Museu Histórico Nacional, Museu Nacional de Belas Artes e o Museu Julio de Castilhos. Por limitações de espaço, a versão carioca é pequena, mas a edição paulistana da mostra, que será inaugurada em junho próximo, terá mais de uma centena de pinturas, gravuras, desenhos e aquarelas e um recorte curatorial mais amplo. Mas é possível vislumbrar desde já, por meio de um alentado catálogo, com mais de 360 páginas, a diversidade de temas, técnicas e estilos e meios pelos quais Porto-Alegre transita.

Estudo para uma cena de batalha, s.d., grafite, nanquim e aguada sobre papel

Estudo para uma cena de batalha, s.d., grafite, nanquim e aguada sobre papel

A publicação, que reúne um vastíssimo material iconográfico, traz também uma seleção de ensaios inéditos, assinados por pesquisadores convidados de diversas áreas, nos quais são esmiuçados diferentes aspectos de sua trajetória, como por exemplo sua relação com o mestre Debret (Valéria Picolli); a importância dada por ele à paisagem tropical como símbolo do país, bem como a convivência entre a formação neoclássica e a sensibilidade romântica (Claudia Valadão de Mattos); sua reflexão acerca da música (Paulo M. Kuhl), e uma releitura crítica da difícil e paradoxal tarefa da primeira geração romântica – da qual Porto-Alegre faz parte – de fundar simbolicamente a nacionalidade brasileira (João Cezar de Castro Rocha).

Outro mérito inquestionável da publicação é o de reunir e tornar acessível um amplo conjunto de textos escritos por Araújo Porto-Alegre, de difícil localização e fundamentais para historiadores da cultura em geral. Afinal, trata-se de uma figura quase onipresente na história oitocentista nacional. Ele foi aluno da primeira turma da Escola Imperial de Belas Artes (Aiba) e posteriormente seu professor e diretor. Também foi aluno dileto de Jean-Baptiste Debret, com quem partiu para a França em 1831. E não se restringiu de forma alguma às artes visuais. Foi arquiteto, cenógrafo, escritor, teatrólogo, crítico de música e artes (sendo pioneiro na tentativa de fundar as bases de uma escola brasileira de arte), membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), protegido de dom Pedro I, e de seu filho, dom Pedro II, cônsul brasileiro no exterior…

Cher compagnon de Voyage, 1834, grafite sobre papel

Cher compagnon de Voyage, 1834, grafite sobre papel

Se esse ecletismo – não à toa ele foi apelidado por um desafeto de “homem-tudo” – é fortemente responsável pela reiterada ideia de que se tratava de um artista medíocre, ele também contribui para iluminar sua rica trajetória e o conturbado período em que viveu. Para Letícia Squeff, que já havia dedicado seu mestrado a estudar a produção crítica de Porto-Alegre, o contato com as obras de arte lhe permitiram compreender um lado mais sensível de sua atuação. “Procuramos tratá-lo de forma mais totalizante”, explica Letícia, curadora da exposição em parceria com Júlia Kovensky, coordenadora de iconografia do IMS. “Ele só não foi melhor artista porque para ele a arte estava em tudo”, afirma ela na tentativa de explicar as reiteradas críticas à qualidade de sua pintura. Em texto publicado no catálogo, Rafael Cardoso faz um interessante alerta sobre o equívoco em relegar a um segundo plano os trabalhos sobre papel: “Somente o pensamento viciado que insiste em relegar o que não é pintura (de cavalete), escultura, arquitetura à condição de ‘arte menor’ explica que não se tenha procedido ainda a uma pesquisa aprofundada de suas aquarelas e desenhos — incluídas aí suas caricaturas, área em que é inegável sua importância, assim como seus esboços e projetos cenográficos”.


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