FICÇÃO

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Boa vida, boa morte

JULIO BERNARDO | ED. 223 | SETEMBRO 2014

 

bernardofinalMeu pai era feirante. Vendia miúdos de boi. Nesse ambiente cresci. Minha mãe o ajudava nos fins de semana. Me levava a tiracolo. Moleque, abria conta em toda banca de pastel que via pela frente. No final do dia, contas monumentais, dos dois cantos da feira, chegavam nas mãos do velho.

– Filho, não é pela grana. Você simplesmente não pode se empanturrar de pastel desse jeito. Muita fritura faz mal. Então, dá pra comer só quatro pastéis por dia?

– 5, pai.

– Fechado.

Feirante não compra no supermercado. Escambo. Frango por alface, peixe por banana, e assim vivíamos. Minha casa? Parecia mais um Baile do Havaí, tamanha a quantidade de abacaxis, melancias e toda a variedade hortifrutigranjeira possível. Tudo lindão, lógico. Feirante não passa mal. Ceasa da ostentação.

Fazíamos de tudo na cozinha. Enquanto a molecada toda fugia de brócolis e fígado, mandando Biotônico pra abrir apetite, em casa a boa mesa vencia diariamente a guerra da fome, que não era pouca. Até hambúrguer tinha, com carne fresquinha, moída na hora.

Por conta de curiosa sociabilidade infantil, acompanhava os amiguinhos no fast-food do palhaço. Comia aquele plástico horroroso, super a contragosto, e alertava os colegas sobre o risco químico do sanduíche da lanchonete. Sabia de cor a receita da carne com minhoca, e falava sobre o perigoso mistério dos nuggets, cujos ingredientes são desconhecidos até hoje. Jantar em casa, o jogo invertia, com a pivetada fazendo carinha de nojo para a pobre da carne malpassada e as inocentes escarolas. No final, nos entendíamos. Afinal, não podíamos nos pegar antes do racha. O único interesse em comum era o futebol. No gol, a desvantagem numérica ia pra pelada, com todos fuzilando chutes nervosos pra cima de mim. Na Vila Leopoldina, os dias não eram fáceis para aspirantes a Waldir Peres. Mas a adversidade até que me tornou um arqueiro afegão médio. De maneira que posso falar de peito aberto que Ronald McDonald fez bem pra mim.

Anos 90. A pós-adolescência trouxe um apetite que só agora diminuiu um pouco e uma sede que ainda aumenta. No lugar dos históricos clássicos Vila Hamburguesa X Vila Leopoldina, realizados na Arena Pelezão, veio sonolento confronto de energia ingerida X caloria gasta, no Meu Estômago Stadium.

Embora não estivesse muito interessado nesses jogos, sempre alguém me informava das goleadas levadas. Calorias deveriam ser gastas imediatamente, para eventual sobrevivência.

Academia de ginástica. Malditos sorrisos plásticos, embalados por som insuportável. Se na rua me sentia legal, nem quando fui hospitalizado me senti tão doente quanto naquela espelunca. Todos mais saudáveis que eu. De minuto em minuto, me alertavam para os riscos de meu estilo de vida. A coisa não durou. Aquilo não é lugar pra mim. Passei a beber mais, com direito a bastante gordura, pra quebrar o gim.

Avisos para a possibilidade de cirrose me levaram ao consumo de pelo menos um litro de água por dia. Pra não ficar muito sem graça, vario com a versão gaseificada. Cerveja também é água, né?

Feira e futebol pra trás. Agora é cozinha. Não aquela romântica, com o delicioso refogado da mãe, mas de restaurante. Mais de uma década nessa. Comida comercial requer certos cuidados. O inimigo se multiplica.

Porco malpassado, gema mole, manteiga, cada hora uma coisa. Acho que preferia a vida de goleiro amador à de cozinheiro de gente fresca. O inimigo da vez agora é o glúten. Povo acostumado com pão industrial acha que o problema é o glúten.

Me enchi do ofício. Até porque jamais conheci alguém que tenha morrido de salmonela. Homem com mais passado que futuro, tenho dedicado meus últimos anos ao hedonismo.

Os fatos nos mostram que a ciência alimentar sempre está errada, já que o vilão da vez invariavelmente se torna o mocinho de amanhã.

Estou com quarenta anos, idade de risco. A possibilidade de ter um treco é bastante considerável. Vale correr o risco.

Pois não quero fazer parte dessa geração que foge da morte. Anciões definhando até os noventa e tantos anos. Não tenho a menor vocação para isso.

Quero morrer no auge da decadência, com um torresmo na mão e um Negroni na cabeça.

Julio Bernardo é autor do livro Dias de feira (Companhia das Letras) e escreve regularmente no blog botecodojb.blogspot.com.br


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