MEMÓRIA

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Um caminho de pedras

Julio de Mesquita Filho, Armando de Salles Oliveira e Fernando de Azevedo estiveram na linha de frente da criação da USP

NELDSON MARCOLIN | USP 80 anos | DEZEMBRO 2014

 

Decreto de criação da USP publicado em O Estado de S.Paulo, no dia 26 de janeiro de 1934

Decreto de criação da USP publicado em O Estado de S.Paulo, no dia 26 de janeiro de 1934

O mês de dezembro de 1933 já ia pela metade quando o educador Fernando de Azevedo encontrou-se com Julio de Mesquita Filho, diretor do jornal O Estado de S.Paulo. Falando em seu próprio nome e no de Armando de Salles Oliveira, interventor federal no governo paulista, Mesquita perguntou a Azevedo se continuava disposto a trabalhar pela criação de uma universidade. “O que solicitava, nesse momento, já não era um novo estudo sobre o problema universitário, de modo geral, mas o próprio decreto-lei que deveria instituir a primeira universidade de São Paulo [USP]”, escreveu ele em artigo de duas páginas para o Estadão do dia 25 de janeiro de 1954. “Pus mãos à obra e, em menos de uma semana, estava concluído o projeto do decreto-lei que nos pareceu conveniente e do maior interesse político submeter ao exame de uma comissão, judiciosamente escolhida, antes de encaminhar à apreciação do interventor do estado”, relatou Azevedo.

A comissão era composta, além do autor do projeto, pelos professores Almeida Júnior (Instituto de Educação), Teodoro Ramos e Francisco Fonseca Teles (Escola Politécnica), Raul Briquet e André Dreyfus (Faculdade de Medicina), Vicente Ráo e Waldemar Ferreira (Faculdade de Direito), Henrique Rocha Lima e Agesilau Bitancourt (Instituto Biológico) e Julio de Mesquita Filho. Após uma semana de debates o projeto recebeu algumas modificações e seguiu para Salles Oliveira. Como desejava o governador, o decreto de criação da USP foi assinado no dia do aniversário da cidade de São Paulo, 25 de janeiro de 1934. “Estava ele [Salles Oliveira] disposto a remover todos os obstáculos a fim de abrir, em São Paulo, a maior forja que se aparelhou em nossa terra para a renovação da cultura e para os progressos das ciências no Brasil”, lembrou Azevedo no artigo escrito há 60 anos.

Fernando de Azevedo em foto dos anos 1950: autor do projeto de decreto-lei que criou a USP e educador de enorme influência em todo o país

Fernando de Azevedo em foto dos anos 1950: autor do projeto de decreto-lei que criou a USP e educador de enorme influência em todo o país

A história da criação da USP, vista sob forma tão resumida, parece simples, livre de percalços. Claro que nada foi tão fácil. Instituir uma universidade em São Paulo nos moldes desejados por seus principais criadores, Mesquita, Azevedo e Salles Oliveira, levou tempo e percorreu um caminho cheio de acidentes.

Último país das américas
Desde o começo do século XIX havia discussões e propostas sobre a criação de universidades. Em 1823, por exemplo, José Feliciano Fernandes Pinheiro, paulista de Santos, era deputado constituinte pelo Rio Grande do Sul e defendia a criação de uma universidade no Brasil para evitar que a única opção fosse estudar em Portugal, como conta Ernesto de Souza Campos em seu livro História da Universidade de São Paulo, de 1954, reeditado agora pela Edusp. A reivindicação não vingou, mas ao menos instalou-se uma comissão que propôs a criação de uma faculdade de direito em São Paulo e outra em Olinda (PE). Ambas surgiram em 11 de agosto de 1827 por decreto de dom Pedro I.

“O Brasil foi último país das Américas a lançar as bases do ensino, sob o regime universitário”, escreveu Souza Campos. Em seu estudo, ele informa o número de organizações do gênero no final do século XIX: 78 nos Estados Unidos, 12 no Canadá, 4 na Colômbia, 4 na Bolívia, 2 no México, 2 no Peru, 2 na Argentina e 1 na Guatemala, Venezuela, Uruguai, Paraguai, Chile, Equador, São Domingos, Honduras e Cuba. A Universidade de Bolonha, na Itália, é considerada a mais antiga do Ocidente – data de 1.088 (século XI). Por aqui, a primeira foi a Universidade do Rio de Janeiro, em 1920, e a de Minas Gerais (atual UFMG), em 1927.

O desejo de ter uma instituição de ensino superior paulista, que congregasse vários cursos universitários, sempre esteve presente nas conversas de Julio de Mesquita Filho (1892-1969) com seus interlocutores, como Fernando de Azevedo (1894-1974). Seu livro de 1925, A crise nacional, já abordava a deficiência do ensino em todos os níveis.

Mesquita cursou direito na Faculdade do Largo São Francisco. Em 1915 começou a editar a edição vespertina do jornal, chamada de Estadinho, que durou até 1921, e em seguida foi secretário de redação do jornal. Quando seu pai, Julio de Mesquita, morreu, em 1927, ele assumiu a direção do Estadão. Além do jornalismo, seus grandes interesses eram a política, a educação e a ciência. Admirava o filósofo Herbert Spencer (1820-1903), Sigmund Freud (1856-1939) e dizia aprender com os artigos de Arnaldo Vieira de Carvalho (1867-1920), fundador da Faculdade de Medicina, e nas conversas com o psiquiatra Franco da Rocha (1864-1933). Na política, participou intensamente de todos os movimentos até sua morte, aos 77 anos. Em julho de 1932, foi um dos líderes civis da Revolução Constitucionalista contra Getúlio Vargas – que apoiara na Revolução de 1930 –, pleiteando eleições livres e uma nova Constituição. Com as forças paulistas derrotadas, Mesquita e seu irmão Francisco acabaram presos e mandados ao exílio. Voltaram ao Brasil em 1933, graças às negociações do interventor Armando de Salles Oliveira (1887-1945).

O interventor em São Paulo Armando de Salles Oliveira (esq.)...

O interventor em São Paulo Armando de Salles Oliveira (esq.)…

A trajetória de Salles Oliveira é curiosa. Ele era engenheiro formado na Escola Politécnica, acionista e presidente da empresa S.A. O Estado de S.Paulo, que edita o jornal, e casado com Raquel, uma das irmãs de Mesquita Filho. Estava, portanto, alinhado aos ideais de 1932 e nunca havia ocupado cargo público. “Dentro dos caminhos tortuosos da política, Getúlio achou melhor reconciliar-se com São Paulo. E nomeou Salles Oliveira interventor em 1933”, conta o historiador Shozo Motoyama, do Centro Interunidade de História da Ciência da USP, no livro USP 70 anos – imagens de uma história vivida (Edusp). Segundo a cronologia histórica do Estadão, disponível no acervo on-line do jornal, o engenheiro só aceitou o posto sob a condição de Vargas conceder anistia a Julio e Francisco, de modo que pudessem retornar ao país e reassumir o diário, e convocar eleições para o ano seguinte – o que realmente aconteceu.

O movimento pela criação da universidade havia ganhado corpo na década anterior a esses acontecimentos. Em 1926, além dos debates em torno do assunto, o diretor do jornal pediu a Azevedo que coordenasse um inquérito sobre a questão do ensino. Tratava-se de questionários enviados a especialistas de todas as áreas, como Reynaldo Porchat, Arthur Neiva, Teodoro Ramos e Francisco de Fonseca Teles, entre outros. Ao ler as respostas do questionário, Mesquita teve corroborada suas preocupações: “O principal problema com que lutamos, problema número 1, primacial no país, era, sem dúvida alguma, o do seu ensino superior”.

Pesquisa de fronteira
Azevedo, o maior parceiro de Mesquita nessa luta, era de São Gonçalo do Sapucaí (MG). Foi professor de latim e psicologia em Belo Horizonte, ensinou literatura na Escola Normal de São Paulo, lecionou sociologia educacional no Instituto de Educação da USP (que acabou extinto) e tornou-se catedrático de sociologia e antropologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL-USP, atual FFLCH). No Rio, assumiu a diretoria geral de Instrução Pública do Distrito Federal entre 1926 e 1930; em 1933 teve o mesmo cargo em São Paulo. Fundou e dirigiu a Companhia Editora Nacional. Em 1932 foi o redator e primeiro signatário do Manifesto dos Pioneiros da Educação (A reconstrução educacional do Brasil), em que se lançaram as diretrizes e base de uma nova política de ensino.

... em consonância com Mesquita e Azevedo

… em consonância com Mesquita e Azevedo

Não admira que o empenho em torno dos mesmos temas e a união de Mesquita, Salles Oliveira e Azevedo tenham dado o impulso definitivo para a criação da USP em 1934, nos moldes diferentes do que vinham funcionando isoladamente as instituições superiores. “Todas as escolas superiores fundadas até o início da década de 1930 eram estabelecimentos com objetivos profissionais, não havendo entre elas nenhuma destinada exclusivamente à formação geral e aos estudos de natureza desinteressada”, explicou Heladio Cesar Gonçalves Antunha em sua tese de livre-docência na Faculdade de Educação da USP, em 1971, depois publicada no livro Universidade de São Paulo – Fundação e reforma (CRPE/MEC, 1974). Por estudos de natureza desinteressada entenda-se ciência básica em contraposição à ciência aplicada, de caráter utilitarista e prático. “A USP destacou-se como pioneira, no sentido de introduzir de modo sistemático a pesquisa ‘desinteressada’ e de fronteira no solo brasileiro”, escreveu Motoyama.

Sabia-se desde o início que a universidade seria a união das faculdades de Direito, de Medicina, de Farmácia e Odontologia, da Escola Politécnica e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Junto com a USP foi criada a FFCL, assim definida por Salles Oliveira: “O grande plano da universidade (…) não podia ser executado de um só golpe. Tinha o governo de começar por partes. E começou pelo principal, organizando imediatamente a FFCL, que é uma instituição essencial, em qualquer sistema universitário, já como um foco de cultura livre e desinteressada e de pesquisas científicas (…)”. Uma das ideias era concentrar os cursos básicos de todas as outras unidades na FFCL para ter uma base comum de formação dos alunos. Essa batalha, no entanto, foi perdida.

O reitor escolhido foi Reynaldo Porchat (1868-1953), ex-diretor da Faculdade de Direito, “o primeiro e maior que já tivemos”, escreveu Azevedo em 1954. Para contratar os professores da FFCL, Mesquita indicou Teodoro Ramos a Salles Oliveira. A primeira universidade paulista começou, então, com a união das faculdades tradicionais e em poucos anos ganhou a companhia de 13 docentes e pesquisadores de talento recrutados na França, Itália, Alemanha e em Portugal das áreas de física, literatura, filosofia, sociologia, matemática, geologia, mineralogia, química, botânica e zoologia. Os numerosos sucessos da USP no ensino, pesquisa e extensão, 80 anos depois, parecem ratificar com sobras o acerto dos que lutaram pela sua criação.


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