MEMÓRIA

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A princesa e as plantas da serra

Expedição da família imperial a Itatiaia em 1872 resulta em livro raro, agora resgatado

CARLOS FIORAVANTI | ED. 231 | MAIO 2015

 

Pico das Agulhas Negras, em Itatiaia, em foto de 1870 de Alberto Henschel, fotógrafo da Casa Imperial

Pico das Agulhas Negras, em Itatiaia, em foto de 1870 de Alberto Henschel, fotógrafo da Casa Imperial

Deve ter sido uma expedição peculiar – um botânico francês, a filha do imperador, então com 22 anos, e, certamente, muitos assistentes e carregadores de bagagens –, da qual infelizmente não há imagens conhecidas. Em julho de 1872, Auguste Glaziou, botânico e paisagista de 39 anos havia 14 no Brasil, liderou uma expedição da qual a integrante mais notável era a princesa Isabel, primeira filha de dom Pedro II, então já casada com Luis Felipe de Orléans, o conde d’Eu, outro francês. Subiram ao maciço de Itatiaia, região montanhosa entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, então parte de uma fazenda, depois comprada pelo governo e transformada em parque nacional, o primeiro do país, em 1937.

Glaziou, certamente atento ao bem-estar da princesa, não deixou de coletar plantas típicas da montanha, que ele visitava pela primeira vez; o botânico Auguste de Saint-Hilaire já tinha percorrido a região cerca de 60 anos antes. Várias espécies se mostraram únicas da região, como uma planta do grupo das samambaias, a Polystichum rochaleanum, que cresce entre fendas de rochas nas áreas mais altas. Como os nobres gostavam de plantas, Glaziou reuniu uma amostra de plantas coletadas na expedição, fez um livro com um formato aproximado de uma folha de papel sulfite comum e 50 páginas, deu-lhe o título de Plantes cueillies sur l’Itatiaia au mois de juillet 1872, impresso na capa de couro verde, fez uma dedicatória e o entregou à princesa.

Princesa Isabel, em foto de 1875, com um bebê

Princesa Isabel, em foto de 1875, com um bebê

A filha do imperador deve ter gostado do presente porque o manteve quando a República tomou o lugar da monarquia e a família real se refugiou em Paris. A princesa Isabel mudou-se depois para a cidade de Eu, na Normandia, até morrer, em 1921. O livro foi doado pelas filhas da princesa ao Museu Nacional de História Natural de Paris e permaneceu por muitos anos quase sem leitores na seção de herbários históricos. Em 2013, Sergio Romaniuc Neto, pesquisador do Instituto de Botânica de São Paulo, trabalhava no museu de Paris para examinar a coleção de plantas brasileiras formada por Saint-Hilaire, soube desse livro e, assim que conseguiu todas as autorizações, examinou-o e o fotografou. “Pouca gente sabia que essa coleção estava lá”, ele observa. Cada página contém amostras de várias plantas: a maioria são samambaias, com algumas rubiáceas, o grupo do cafeeiro, entre outras. Agora, Romaniuc e outros botânicos começam a examinar com atenção as plantas do herbário da princesa, sabendo que podem encontrar espécies ainda não descritas ou talvez já desaparecidas, como parte de um grande trabalho para repatriação das informações sobre coleções botânicas mantidas em outros países (ver Pesquisa Fapesp nº 229).

A mãe de dom Pedro II, a imperatriz Leopoldina, o próprio imperador e suas filhas gostavam de botânica a ponto de manterem coleções de plantas e apoiarem Glaziou na construção de jardins e praças próximos à residência de verão da nobreza em Petrópolis, na região serrana do Rio. Glaziou cuidava também da ornamentação das exposições de plantas organizadas pela princesa Isabel, com distribuição de medalhas aos premiados pelas melhores plantas, selecionadas por um refinado júri. O imperador, a princesa e seu marido compareciam à abertura da exposição. Resgatando tais eventos, uma edição de O Estado de S.Paulo de 1967 descreveu: “A princesa contribuía com plantas e flores ornamentais, colocando ela própria os exemplares nos mostruários. As medalhas comemorativas destas exposições foram pagas pela conta particular de dom Pedro II”. A última exposição foi realizada em 1888, um ano antes do fim da monarquia no Brasil.


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