EDITORIAL

Print Friendly

Ações integradas

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 232 | JUNHO 2015

 

Nos últimos cinco anos (2010-2014), o Brasil registrou uma média anual de 881 mil casos de dengue, um aumento de 126% em relação à média anual do quinquênio anterior (338 mil casos). Só nos quatro primeiros meses de 2015, foram quase 750 mil casos no país, 66% na região Sudeste. A reportagem de capa desta edição mostra que não há solução única para evitar novas epidemias. Uma política pública eficaz na erradicação da doença terá que se basear em uma ação coordenada, combinando instrumentos existentes e resultados de pesquisas científicas e tecnológicas. Novas abordagens, como vacinas preventivas e o uso de novos inseticidas e mosquitos transgênicos para redução da população de insetos transmissores da doença, podem ser eficazes, especialmente se subsidiadas pela ampla coleta de informações por agentes públicos e privados.

A identificação das alterações na estrutura e no funcionamento do cérebro que caracterizam o seu amadurecimento saudável é um objetivo preliminar de amplo estudo multidisciplinar e multicêntrico. Uma das hipóteses é que, na transição da infância para a adolescência, as transformações pelas quais passa o cérebro de um jovem saudável são diferentes daquelas que ocorrem em pessoas mais propensas a apresentar problemas psiquiátricos. Um dos objetivos de longo prazo é reunir um conjunto de alterações que sejam indicadoras de um desenvolvimento cerebral atípico, levando ao estabelecimento de marcadores de risco de transtornos mentais. Ao identificar os sinais antes que a doença se instale, espera-se desenvolver, no futuro, meios para recolocar o cérebro na sua trajetória normal de desenvolvimento.

Uma viagem ao Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo, mostra como descendentes de quilombolas se organizam para garantir a ocupação produtiva das terras reconhecidas após 1997. De propriedade das associações locais, as terras ocupadas por esses agricultores dividem-se entre o cultivo de subsistência e o plantio de culturas de maior apelo comercial como a banana e a pupunha. A população local procura o equilíbrio entre suas tradições de uso da terra e as restrições impostas pela legislação, como o uso das queimadas e a caça. Acompanhamos pesquisadores atuantes na região, que estudam as formas de uso do território, passando por ações de coleta e preservação de tipos de semente, além do inventário cultural dos quilombos, e presenciando um mutirão de colheita com direito a baile ao fim. Uma galeria de fotos está disponível em revistapesquisa.fapesp.br.

Mapeamento recente sobre a infraestrutura de pesquisa no Brasil mostra que os investimentos têm resultado em laboratórios pequenos e com equipamentos modestos. O foco não tem sido nas grandes estruturas de pesquisa ou nas facilities, os laboratórios multiusuários com equipamentos sofisticados que atendem a demandas amplas.

Por último, uma boa demonstração de pesquisa que avança o conhecimento e tem aplicação econômica, além de despertar o interesse e a curiosidade, está na reportagem de ácaros de aves. A identificação dos aracnídeos microscópicos que afetaram a produção de frango no interior paulista resolveu um problema prático e produziu um avanço em área pouco explorada da zoologia. É uma alegria compartilhar com os leitores esta (minha primeira) edição.


Matérias relacionadas

PESQUISA BRASIL
Mapa da ciência, fungo e sapos, apoio à pesquisa e escravidão
BIOLUMINESCÊNCIA
Processo químico da bioluminescência de fungos é reciclável e flexível
GENÉTICA
Estudo mostra por que o olfato varia ao longo da vida