ENTREVISTA

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Alexander Wilhelm Armin Kellner: Nas asas do passado

Paleontólogo fala dos primeiros répteis voadores, os pterossauros, dos estudos com os chineses e das dificuldades da pesquisa em sua área

MARCOS PIVETTA | ED. 232 | JUNHO 2015

 

As primeiras pedras no caminho do geólogo e paleontólogo Alexander Wilhelm Armin Kellner, 53 anos, foram as preciosas. Seu pai teve um comércio de joias no Rio de Janeiro nos anos 1970. Com 12 anos, esse filho de imigrantes do pós-guerra, de pai alemão e de mãe austríaca, nascido prematuramente no diminuto principado europeu de Liechtenstein, servia café e varria o chão na loja da família. Desde então, rochas de outra natureza, restos de vertebrados preservados na forma de fósseis, pavimentam sua vida profissional.

Brasileiro naturalizado desde 1997, Alex Kellner, como é mais conhecido, é um dos maiores especialistas do mundo em pterossauros – um raro grupo de répteis voadores que, como os dinossauros, surgiu no final do período Triássico, por volta de 230 milhões de anos atrás, e extinguiu-se misteriosamente nos estertores do Cretáceo, 66 milhões de anos atrás. Embora tenha havido exemplares do tamanho de um pardal, os pterossauros, primeiros vertebrados a alçar voo, são popularmente associados a animais de grande porte, cujas asas abertas podiam atingir uma envergadura superior a 10 metros. Foram os senhores dos ares por mais de 160 milhões de anos.

Professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Kellner publicou mais de 200 artigos em revistas científicas. Descreveu quase 60 novas espécies de vertebrados. “Mas tem um pouco de tudo aí, dinossauros e crocodilianos, entre outros. De pterossauro, descrevi 29 espécies”, diz o paleontólogo, que também é pesquisador associado do Museu Americano de História Natural (AMNH) e do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia (IVPP) de Pequim. Entre abril de 2014 e janeiro deste ano, o museu nova-iorquino abrigou uma exposição desses répteis alados, cuja curadoria foi partilhada por Kellner e um colega norte-americano, Mark Norell.

Com ricos depósitos de fósseis do Cretáceo com idade entre 115 milhões e 110 milhões de anos, a bacia do Araripe, que abrange parte dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco, é um dos lugares que mais forneceram vestígios de pterossauros para Kellner. Nos últimos anos, a China tornou-se outra fonte importante de material para seus estudos. “Os chineses decidiram investir em paleontologia. Agora não deixam sair nenhum fóssil de lá”, afirma. “Deveríamos fazer o mesmo.” Nesta entrevista, Kellner conta um pouco de sua história familiar e fala dos percursos, por vezes tortuosos, de sua pesquisa.

Como você veio parar no Brasil?
Meu pai era alemão e nasceu em 1926. Onde ele estava por volta de 1945? Sabe aqueles garotos do filme A queda, sobre o Hitler, que ficavam em Berlim totalmente sem noção? Consigo visualizar meu pai como um deles. Ele se deu mal na guerra, perdeu toda a família, chegou a ser preso pelos russos, mas fugiu e depois foi capturado pelos americanos. Foi liberado por um oficial judeu, porque era um pobre coitado. Meu pai começou então a trabalhar com compra e venda de terrenos e ficava entre a Áustria e a Suíça. Ele veio ao Brasil na década de 1960 com minha mãe, que era austríaca e faleceu no ano passado. Ela me teve com 17 anos, quando estava passando por acaso em Liechtenstein. Durante meus quatro primeiros anos, fiquei com minha avó na Áustria até eles se estabelecerem aqui. Em 1965, minha mãe me buscou e, desde então, estou no Brasil. Naquela época, falava-se do milagre de Brasília, a capital do futuro. Quando meu pai veio para cá, havia muita discussão sobre venda de terrenos. Ele veio, viu que não havia nada interessante nessa área, mas resolveu se estabelecer no Brasil. Foi primeiro para Brasília, passou por Minas Gerais e depois pelo Rio, onde achou um veio econômico interessante, que é o das pedras preciosas.

Idade:
53 anos
Especialidade:
Paleontologia
Formação:
Graduação e mestrado em Geologia na UFRJ e doutorado na Universidade Colúmbia em parceria com o Museu Americano de História Natural
Instituição:
Museu Nacional/UFRJ
Produção científica:
Mais de 200 artigos científicos e quase 60 espécies de vertebrados descobertas, das quais 29 de pterossauros

Sua primeira língua então é o alemão?
Cheguei aqui e só falava alemão. Estudei numa escola alemã, a Corcovado, na época situada na Urca e hoje em Botafogo, que é trilíngue. Lá aprende-se português, alemão e inglês. Comecei na loja de joias do meu pai com 12 anos. Era do tipo linha-dura. Nada vem de graça, tem que trabalhar pelas coisas, ele dizia. Servi cafezinho, limpei vidro e varri o chão. Foi ótimo. Essa foi minha formação desde o começo.

A paixão pela paleontologia surgiu desde criança?
Quis ser tudo: astronauta, diplomata e pensei em fazer administração para cuidar das empresas de meu pai. Mas o que aconteceu nesse ínterim? Eu jogava futebol, era goleiro e o time da escola teve uma oportunidade maravilhosa: jogar contra um time da base do Flamengo. Sou Fluminense, mas, para nós, era uma honra. Só que queríamos ganhar e chamamos alguns alunos mais velhos, que tinham acabado de passar no vestibular, para reforçar nosso time. Empatamos em 2 a 2. Fui destaque do jogo e até peguei pênalti. Tinha 15 ou 16 anos. Lembro que eram dois anos antes do vestibular. Houve uma comemoração depois do jogo. Um dos meninos mais velhos me disse que tinha acabado de passar em geologia. Eu nem sabia o que era isso. Ele me disse que era o estudo das rochas e perguntou o que eu ia fazer. Primeiro disse administração e depois falei que queria mesmo estudar aqueles animais que ficam nas pedras, os fósseis. Depois aprendi que o certo é dizer rocha. Falar pedra é heresia para um geólogo. Então ele disse para mim: “Se você quer paleontologia, tem de fazer geologia”. Aí peguei o ônibus, fui para casa e disse para minha mãe que ia fazer geologia. Ela perguntou “geo o quê?”. Isso para mostrar nosso grau de formação.

Foi fácil entrar na Geologia da UFRJ?
Era preciso fazer 5.534 pontos no vestibular para entrar. E foi o que eu fiz. Fiquei com a última das 40 vagas. A geologia era concorridíssima. Ainda na graduação comecei a trabalhar com o paleontólogo Diogenes de Almeida Campos, que estava no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) [ver entrevista com Almeida Campos em Pesquisa FAPESP nº 108]. Essa parceria dura até hoje. Consegui depois uma bolsa de iniciação científica. Saí de casa e fui morar com um amigo. Ora dependia da bolsa, ora do trabalho com meu pai. Terminei a graduação e foi uma época complicada na UFRJ. Um professor reprovou a turma toda no último ano e entramos com um processo contra ele. Eu e outros terminamos o curso, mas alguns não conseguiram passar. Fiquei chateado com aquilo tudo e queria me afastar da academia. Trabalhava com meu pai, ganhava um bom dinheiro e pensava em seguir minha vida. Mas, como gostava de paleontologia, continuei indo ao DNPM. Um dia, o Diogenes me perguntou se eu ia continuar fazendo pesquisa. Disse que sim e ele me respondeu que então eu deveria fazer mestrado. No ano seguinte, entrei no mestrado na UFRJ. Passei em primeiro lugar, consegui uma bolsa e tive um desentendimento com meu pai, mais um, aliás, porque ele não queria que eu me tornasse um paleontólogo. Queria que eu tocasse as empresas dele. Aí tive uma oportunidade que mudou a minha vida. Foi em 1989, no encontro da Sociedade de Paleontologia de Vertebrados, em Austin, no Texas.

O que ocorreu no encontro?
A primeira coisa que percebi era que o encontro de paleontólogos especialistas em vertebrados fósseis de todo o mundo estava sendo realizado em um hotel cinco estrelas. No Brasil, fazíamos eventos em locais pequenos, que, em alguns casos, mal tinham banheiro. O primeiro trabalho que vi no encontro foi de paleopatologia, estudo de doenças em fósseis. Estava no meio do mestrado e nunca tinha ouvido falar disso. Naquele evento havia uma sessão inteira dedicada ao assunto. Depois, apareceram estudos de isótopos, cladismo, que é a relação filogenética entre os organismos. Não sabia nada disso. Me lembro que, depois da quarta ou quinta apresentação, saí do encontro determinado a virar pesquisador.

O paleontólogo em campo na China em 2005

O paleontólogo em campo na China em 2005

Como você acabou fazendo doutorado na Universidade Colúmbia em um programa associado com o AMNH?
Durante meu mestrado fui para a Europa e vi várias coleções, inclusive na Alemanha, no Instituto para Paleontologia e Geologia da Baviera. Havia ali um pesquisador chamado Peter Wellnhofer, que tinha vários trabalhos publicados, e fui falar com ele. Wellnhofer me levou a um armário na sala dele, abriu uma gaveta e mostrou uma asa completa de pterossauro. Abriu outra gaveta e havia um crânio completo, cheio de outros ossinhos. Tudo fóssil do Brasil, que eu vi por alguns segundos. Ele disse que estava terminando um trabalho e achava que o AMNH devia ter mais material. Sugeriu que eu falasse com John Maisey, atualmente curador da seção de paleontologia do museu em Nova York. Voltei para o Brasil frustrado. Estava trabalhando aqui com um monte de caco quebrado de pterossauro e eles com o bicho completo na Alemanha. Resolvi escrever uma carta para o Maisey. Disse que fazia mestrado sobre pterossauros e perguntei se ele tinha material que eu pudesse estudar. Mandei a carta, sem esperança de resposta. Mas o Maisey disse que conhecia meu trabalho – nem sei de onde, se bem que eu publicava bastante desde a época de estudante. Enfim, para encurtar a história, acabei sendo aceito pela Colúmbia e me mudei para Nova York com mulher e dois filhos pequenos. Fiquei lá de 1991 a 1996. Entrei no Museu Nacional em 1997, quando voltei ao Brasil.

Como surgiu seu interesse pelos pterossauros?
Em boa parte porque adorava os Herculoides, um desenho animado criado nos Estados Unidos no fim dos anos 1960 que passou mais tarde no Brasil. Tinha dragões e tudo aquilo ali me fascinava.

Como você descreve um pterossauro para um leigo?
De uma forma simplificada, são répteis com asas enormes e um corpo muito pequeno. As formas mais basais tinham cauda longa e pescoço curto. As formas mais derivadas tinham cauda curta, pescoço comprido e cabeça ainda mais superdimensionada se comparada ao corpo. Em termos evolutivos é bom frisar que os pterossauros não são aves ou dinossauros. Apesar de ainda existir discussão onde exatamente esses animais alados estão posicionados na cadeia evolutiva dos répteis, a maioria dos autores, inclusive eu, defende que os pterossauros são parentes próximos dos dinossauros. São um grupo irmão dos dinossauros. Isto significa dizer que os dois grupos derivam de um ancestral recente comum e depois cada um seguiu o seu caminho evolutivo de forma independente. Enquanto os dinossauros dominaram a terra firme, os pterossauros se tornaram os senhores do céu. Há, no entanto, paleontólogos que acreditam que os pterossauros sejam mais próximos da linha evolutiva que originou os lagartos.

Os registros fósseis encontrados de dinossauros não são um pouco mais antigos do que os de pterossauros?
Os dinossauros mais antigos passam dos 230 milhões de anos enquanto os pterossauros ficam na casa dos 215 milhões ou 220 milhões de anos. Isso só tem a ver com a questão da preservação dos fósseis. Em termos numéricos, há oito ou nove vezes mais espécies conhecidas de dinossauros do que de pterossauros. Em torno de 215 espécies de pterossauros foram descritas. Dessas, aproximadamente 150 são consideradas hoje válidas pela ciência. Das 2 mil espécies descritas de dinossauros, pouco mais de mil são consideradas válidas, dependendo da fonte usada como referência.

Kellner com os filhos em Washington em 1993: doutorado no Museu Americano de História Natural

Kellner com os filhos em Washington em 1993: doutorado no Museu Americano de História Natural

Por que um pterossauro não pode ser considerado uma ave?
Há três grupos que desenvolveram o voo ativo: as aves, os morcegos e os pterossauros. O resto plana. A história evolutiva de cada grupo é diferente. Sabemos que um pterosssauro não é uma ave pela anatomia, estudando os ossos. Os pterossauros têm o quarto dígito, o dedo anular, alongado, que sustentava uma membrana alar. Essa constituição é bem distinta da dos morcegos, que possuem quatro dígitos envolvidos na asa, e das aves, que têm penas e os ossos do antebraço proporcionalmente mais desenvolvidos.

É possível ter uma ideia de como deve ter sido a convivência entre os pterossauros e os dinossauros?
Há registros de pterossauros que foram predados por dinossauros. Já foi encontrado, por exemplo, um dente de espinossauro, um dinossauro carnívoro, dentro de uma sequência de vértebras de pterossauro. Grosso modo, podemos dizer que eles viveram juntos, mas, com exceção dos dinossauros avianos, dos quais derivam as aves, habitavam ambientes separados. Todos os registros de pterossauros indicam que eles voavam. Por isso, eles podiam fugir dos dinossauros de terra. Apenas os dinossauros avianos competiam com os pterossauros.

Por que a bacia do Araripe preservou tantos fósseis de vertebrados?
O Araripe é uma região maravilhosa em termos de preservação de fósseis do Cretáceo. Gosto de dizer que é assim porque Deus é brasileiro. Mas brincadeiras à parte, até porque sou agnóstico, a riqueza fossilífera da região tem explicação científica. O Araripe era um fundo de lago gigantesco, só que anóxico, sem oxigênio, onde tudo que caía ali dentro não era destruído nem decomposto. Essa característica preservou os fósseis, com um adicional: ali houve formação de nódulos de calcário, envolvendo os restos orgânicos, que funcionaram como uma jaqueta, protegendo os ossos da compressão resultante do peso das camadas sedimentares. Os melhores fósseis preservados hoje em dia, com exceção dos encontrados em âmbar, são os achados em nódulos calcários. Alguns pterossauros do Araripe são muito particulares. Há os da subfamília dos Thalassodrominae, que têm cristas enormes, e foram achados apenas no Brasil. Tem também os Tapejarinae, com cristas menores, que primeiro foram encontrados aqui e só depois na China e em outros lugares. Sem contar os Anhangueridae, que, com os seus dentes bem desenvolvidos, foram primeiramente registrados no Brasil e depois em outras partes do mundo.

Com quase 30 espécies descritas de pterossauros, quais são as suas principais contribuições para o entendimento desses répteis alados?
Tenho uma teoria proposta em 1994 que fala da competição entre aves e pterossauros. Fiz uma análise global e vi que há uma concentração absurda de pterossauros em quatro depósitos fósseis: Solnhofen, no sul da Alemanha; Cambridge Greensand, na Inglaterra; o Araripe, no Nordeste; e a formação Niobrara, nos Estados Unidos. Esses depósitos representam áreas que, no passado, estavam próximas do mar. Comparando o conteúdo fossilífero, existe uma quantidade muito maior de pterossauros do que de aves. Uma vez que ambos possuem ossos frágeis, não se trata de algum fenômeno que possa ser explicado pela preservação. Então posso dizer que, durante o Cretáceo e grande parte do Jurássico, as áreas costeiras eram dominadas pelos pterossauros, amplamente predominantes em relação às aves. Na parte interna dos continentes, não sabemos quem era dominante. Não temos dados suficientes. Talvez a China seja o único lugar do mundo onde se possa equacionar essa questão da competição das aves e dos pterossauros fora das regiões costeiras. Eles têm depósitos fósseis em áreas de sua antiga parte continental.

É possível dizer que, apesar de répteis, alguns pterossauros conseguiam controlar a temperatura corporal?
Fiz um estudo de fisiologia, em colaboração com o Diogenes, publicado na Science em 2002, que aborda essa questão. Mostrei que um pterossauro com uma grande crista apresentava impressões, interpretadas como vasos sanguíneos, que indicavam alguma forma de regulação térmica. Esse réptil tinha um metabolismo mais próximo da homeotermia. Outra contribuição interessante, que tange essa questão, foi realizada com os colegas chineses. Trata-se de uma reavaliação da presença de pelos nos pterossauros. Um paleontólogo havia achado um material que parecia ser pelo de pterossauro em um fóssil do Cazaquistão. Mas todo mundo disse que não se tratava disso. Resgatamos essa história e, por meio de uma espécie da China, o Jeholopterus ningchengensis, mostramos que os pterossauros tinham pelo. Isso foi em um trabalho de 2009. Denominamos esses filamentos densos de picno-fibras. Outro trabalho importante foi um que publiquei na Nature em 1999. Mostrei que tínhamos encontrado tecidos moles fossilizados, fibras musculares e vasos sanguíneos, em um dinossauro de 110 milhões de anos, que, em seguida, denominei de Santanaraptor placidus. Aliás, meu sonho seria encontrar alguém no Brasil da área de biologia molecular para desenvolver um trabalho com biomoléculas em tecidos moles. Tenho material maravilhoso, mas não posso mudar o foco das minhas pesquisas.

Nas últimas décadas, a China ganhou espaço na paleontologia mundial. Isso se deve a uma concentração maior de fósseis de dinossauros e também de pterossauros em seu território?
Não. Há pterossauro em todos os continentes, provavelmente até na Antártida. O problema é que cerca de 50% de toda a sua diversidade e mais de 90% de seus exemplares vêm das quatro regiões que citei, mais os depósitos fósseis das formações Yixian e Jiufotang, da China, descobertos recentemente. Nesse quebra-cabeça, há algumas peças que tentamos juntar, mas não sabemos se elas estão bem dispostas. A informação é difusa e toda vez que encontramos um novo depósito as coisas mudam. Foi o que ocorreu com a China. Sabe quando foi descrito o primeiro pterossauro desses depósitos chineses? Em 1997.

Com sua equipe na bacia do Araripe em 2011: região rica em fósseis do período Cretáceo

Com sua equipe na bacia do Araripe em 2011: região rica em fósseis do período Cretáceo

Você tem feito muitos trabalhos com os chineses. Como é essa parceria?
É algo de que me orgulho. Este é o 12º ano em seguida que vou para a China e já publiquei mais de uma dúzia de trabalhos com eles. Pelo menos 50% da minha pesquisa é hoje em dia financiada pelos chineses. Eles têm depósitos ricos em fósseis e têm investimento. No Brasil também temos os depósitos, mas não há recursos. Meus colegas de lá trabalham com US$ 1 milhão para desenvolver suas pesquisas. Você sabe quando vou ganhar esse dinheiro para estudar fóssil no nosso país? Nunca ganhei nem 10% disso. O Estado chinês diz que a paleontologia é importante e investe.

Por que acham importante fomentar a paleontologia?
Eles são interessados em desenvolver a ciência básica em todas as áreas. Isso inclui a paleontologia. Publicam muitos papers na Science e na Nature sobre diferentes tipos de fósseis, e não apenas de dinossauros, e usam a divulgação científica para atrair jovens aos seus museus de história natural. A ciência brasileira um dia tentou concorrer em pé de igualdade com a China. Mas não damos nem para o começo. O Brasil agora vai perder da Índia. Na paleontologia ainda não perde, mas, em breve, vai perder se não houver mudanças.

Qual é a situação da paleontologia brasileira?
É horrorosa. A maioria dos meus colegas entende a minha posição, mas não gosta que eu diga isso. Nossa produção científica é fraquíssima comparada ao nosso potencial. Muitos países estão passando o Brasil. Há ilhas de exceção, como ocorre em outras áreas da ciência brasileira. Mas, no geral, a paleontologia do Brasil está muito aquém do que um país com tantos depósitos extremamente ricos em fósseis pode oferecer à ciência mundial. E não é porque eu e meus colegas não queremos trabalhar. Perdemos, por exemplo, de 10 a 1 da Argentina. Com toda a crise, eles continuam investindo na área. Claro que os argentinos têm coisas que os favorecem, como as áreas desérticas com fósseis e uma maior tradição na área. Mas nada serve de desculpa para o Brasil estar em uma posição tão fraca.

Qual é o objetivo do movimento SOS dinossauros que você lançou em janeiro?
Queremos mais verbas para a paleontologia nacional. Queremos que as agências de fomento criem uma área específica para a paleontologia. Hoje não somos ouvidos. Estão matando uma geração de novos pesquisadores. Somos vistos como uma especialidade dentro da geologia, da zoologia ou até da botânica em comissões que julgam projetos geralmente sem contar com paleontólogos. Pode escrever aí: se houver investimento, vários fósseis importantíssimos vão ser encontrados na Bahia. Claro que, se eu soubesse exatamente onde, já estava lá. Existe a necessidade de fazer buscas sistemáticas nos diversos depósitos do Cretáceo daquele estado que reúne todas as condições para encontrarmos coisas interessantes. Mas tem que investir. Com frequência, ouço pesquisadores estrangeiros dizerem que não exploramos nossos depósitos fossilíferos e, por isso, o Brasil não pode reclamar da saída de exemplares para o exterior.

Hoje o contrabando de fósseis é um problema de qual tamanho no Brasil?
Entre as décadas de 1960 e 1980, os fósseis brasileiros estavam perambulando por aí. Podiam ser adquiridos por qualquer um em praças e aeroportos. Hoje isso mudou, inclusive pelo trabalho que diversos pesquisadores da geração passada e da minha fizeram de conscientização do valor científico desse material. Alguns países da Europa permitem a venda de fóssil. Aqui não. Mas o contrabando ainda é um problema grave. Coibir a venda é positivo, mas é preciso haver incentivo para que os pesquisadores possam coletar exemplares. Na China, as pessoas coletam e repassam os fósseis para as instituições. O Brasil não faz o dever de casa. Os chineses tinham o mesmo problema que nós. Investiram em paleontologia e hoje não se pode tirar fóssil de lá sem ter problemas com as autoridades ou ser mal visto pelos colegas de profissão. Nunca é demais relembrar que uma boa coleção de fósseis traz bons pesquisadores, que fazem bons trabalhos e conseguem mais verbas. Para fazer o quê? Coletar mais e, com isso, contribuir para o conhecimento da evolução da vida em nosso planeta! Uma boa coleção é a base de tudo. Outro ponto negativo que temos no nosso país é a situação dos nossos museus de história natural. Além de poucos, a maioria se encontra em situação difícil, com exposições antiquadas, sem atrativos. No início do ano, por exemplo, o Museu Nacional, o mais antigo do Brasil, fechou por um tempo por falta de pagamento dos serviços de limpeza e segurança.

Você foi preso pela Polícia Federal em 2012 no aeroporto de Juazeiro do Norte (CE) sob acusação de transporte ilegal de fósseis e passou uma noite na cadeia. Poderia falar sobre esse episódio?
Essa história tem um pouco de tudo. Tem coisas que eu não me importo que publiquem. Mas outras prefiro não divulgar. Estou processando o DNPM, justamente o lugar em que comecei a trabalhar, por causa da prisão, e pedindo uma indenização de R$ 1 milhão. Um colega francês, que estava comigo e também foi preso, está fazendo o mesmo. Posso dizer que estimulei um projeto de pesquisa de um grupo local de pesquisadores do Ceará a coletar material no Araripe e que houve uma disputa com o DNPM local. Fomos presos no aeroporto com fósseis de peixes que estávamos levando para o Rio de Janeiro. Estava tudo dentro da legalidade, como sempre fiz. Levei fósseis do Araripe para o Rio durante toda a minha vida. Devo muito ao Araripe. Não teria estudado na Universidade Colúmbia se não fosse o meu orientador e a possibilidade de fazer pesquisa com material do Nordeste. Achei que era justo, e bom para o desenvolvimento da pesquisa local, que houvesse um grupo local que fizesse coletas nesses depósitos. Mais recentemente, tentaram fazer um acordo para eu retirar o processo. Mas agora vou até o fim e isso está nas mãos da Justiça.


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