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Anfíbio noturno brilha no escuro

Fluorescência era considerada inexistente em vertebrados terrestres

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 17:35 13 de março de 2017

 

Brilho emitido por Hypsiboas punctatus pode fazer parte da comunicação visual da espécie

Brilho emitido por Hypsiboas punctatus pode fazer parte da comunicação visual da espécie

Com uma diversidade de cores, cantos e comportamentos, os sapos, rãs e pererecas contam com um imenso repertório de formas de comunicação. Pesquisadores argentinos e brasileiros acabam de acrescentar uma modalidade marcante: a fluorescência. Pererecas da espécie Hypsiboas punctatus emitem um brilho esverdeado e azulado, de acordo com artigo publicado nesta segunda (13 de março) na revista PNAS. “Contrariamos a ideia de que no ambiente terrestre a fluorescência existiria apenas em insetos”, afirma o farmacêutico Norberto Peporine Lopes, do campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

A fluorescência foi descoberta pelo biólogo argentino Carlos Taboada durante o doutorado na Universidade de Buenos Aires sob orientação do herpetólogo Julián Faivovich. Em busca de elucidar a base química do fenômeno, visível ao olho humano apenas quando o animal é iluminado com luz ultravioleta, ele passou um período no laboratório de Lopes. Conseguiram identificar os compostos responsáveis pela emissão de luz, que batizaram como “hyloínas” – uma referência à família Hylidae, à qual pertencem as pererecas.

“O mecanismo é diferente do que se vê em vaga-lumes”, alerta Lopes. O fenômeno da bioluminescência depende apenas de reações químicas, enquanto a fluorescência ocorre quando moléculas absorvem luminosidade externa (a luz da Lua, no caso dessas pererecas noturnas) e reemitem em um comprimento de onda maior. A estrutura da pele desses animais, translúcida e com uma camada repleta de cristais, parece ser importante para o fenômeno e pode indicar onde procurar exemplos semelhantes: outras seis famílias de sapos, rãs e pererecas contêm espécies com esse tipo de pele.

Embora o trabalho de campo inicial tenha sido feito na Argentina, o biólogo argentino Andrés Brunetti, atualmente em estágio de pós-doutorado no laboratório de Ribeirão Preto, verificou que o fenômeno vale para pererecas da mesma espécie no Pantanal brasileiro. A função ecológica desse brilho ainda será investigada, mas características das emissões fluorescentes coincidem com a sensibilidade dos receptores dos olhos das pererecas sugerindo um papel na comunicação visual, de acordo com estudos fotoquímicos realizados pelo grupo de Gabriela Lagorio, da Universidade de Buenos Aires. “Estamos abrindo um novo caminho para a compreensão evolutiva da fluorescência”, comemora Lopes.

Projetos
1.
Metabolismo e distribuição de xenobióticos naturais e sintéticos: da compreensão dos processos reacionais a geração de imagens teciduais (nº 14/50265-3); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Programa Biota; Pesquisador responsável Norberto Peporine Lopes (USP); Investimento R$ 2.472.002,03.
2. Ecologia química em anuros: caracterização de compostos voláteis e feromônios peptídicos em secreções de peles de rãs (no 14/20915-6); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Norberto Peporine Lopes (USP-RP); Bolsista Andrés Eduardo Brunetti; Investimento R$ 189.215,98.
3. Desenvolvimento metodológico e estudos de prospecção de recursos biológicos marinhos com potencial citotóxico sob a óptica da biologia de sistemas (no 14/12343-2); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Norberto Peporine Lopes (USP-RP); Bolsista Fausto Carnevale Neto; Investimento R$ 273.694,00.
4. Uma abordagem multidisciplinar para o estudo da diversificação de anfíbios (nº 12/10000-5); Modalidade Jovem Pesquisador; Pesquisador responsável Taran Grant (USP); Investimento R$ 3.042.612,36.
5. Diversidade e conservação dos anfíbios brasileiros (nº 13/50741-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Temático; Programa Biota; Pesquisador responsável Célio Fernando Baptista Haddad (Unesp); Investimento R$ 4.053.331,57.

Artigo científico
TABOADA, C. et al. Naturally occurring fluorescence in frogs. PNAS. On-line 13 mar. 2017.


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