RESENHAS

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Machado de Assis sob novas lentes

JEAN PIERRE CHAUVIN | ED. 256 | JUNHO 2017

 

Em 2018 completam-se 110 anos da morte de Joaquim Maria Machado de Assis (1839 – 1908), um dos maiores escritores de que se tem notícia – não por acaso, alçado ao panteão da literatura universal, ao lado de William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Laurence Sterne, Jonathan Swift, Xavier de Maistre, Stendhal, Gustave Flaubert, Almeida Garrett, Eça de Queirós e outros. Às vésperas da efeméride, os leitores poderão contar com ótimas companhias em torno de sua obra. Refiro-me a Machado de Assis: Lido e relido, coletânea de ensaios organizada por João Cezar de Castro Rocha (docente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Uerj), e Machado de Assis, o escritor que nos lê – ensaio de Hélio de Seixas Guimarães (professor da Universidade de São Paulo, USP).

O livro de Castro Rocha é a versão em português de The author as plagiarist: The case of Machado de Assis (2005), resultado de um colóquio internacional realizado nos Estados Unidos. A versão brasileira reúne mais de 40 especialistas debruçados em torno do que Machado produziu em diversos gêneros: crítica, romance, conto, poesia, crônica e congêneres. Afora nomes bastante conhecidos de nossa crítica, a coletânea dá voz a estudiosos que atuam ou atuaram em instituições de diversos países, a exemplo de Earl Fitz (Universidade Vanderbilt), Idelber Avelar (Universidade Tulane), Michael Wood (Universidade de Princeton), Stephen Hart (University College London), Hans Ulrich Gumbrecht (Universidade Stanford), Karl Ludwig Pfeiffer (Universidade de Siegen), Pedro Meira Monteiro (Princeton), Abel Barros Baptista (Universidade Nova de Lisboa), Frank Sousa (Universidade de Massachusetts Lowel), Pablo Rocca (Universidad de la República – Montevidéu), Paul Dixon (Universidade Purdue) e Arnaldo Saraiva (Universidade do Porto).

Registre-se, ainda, a voz de José Saramago, que comparece com um tocante relato às páginas finais do volume. O escritor português, que possuía a quarta edição das Memórias póstumas de Brás Cubas, de 1914, descreve Machado como um desses grandes nomes que “são filhos do que leram e de si mesmos”. A síntese faz jus à multiplicidade de temas abordados pelos especialistas nos capítulos que o precedem. Lá estão os intertextos de Machado com a cultura em geral e a literatura europeia, o que se traduz em temas como a abordagem da loucura, a representação do ceticismo, a figuração do leitor implícito, os diálogos entre música e literatura, a tonalidade irônica e o questionamento da ciência. Nesse painel cabem complicações do amor; as etiquetas e os códigos de conduta numa sociedade abrasada pela lógica recompensatória do utilitarismo; o papel dos narradores e a postura ambígua dos personagens; a capacidade de mimetizar a mentalidade dos leitores.

Os ensaios levam em conta a nova roupagem que o romancista brasileiro deu a nomes da literatura mundial, distribuídos entre a Antiguidade e o Oitocentos, com escalas nos séculos XVI, XVII e XVIII. Acima de outras vozes, ressoam aquelas de Shakespeare, na representação trágica da existência; de Sterne, como paradigma do estilo autoirônico dos narradores machadianos; de Honoré de Balzac, na representação implacável da sociedade de arrivistas. Machado de Assis: Lido e relido explicita o fato de que o autor não só dialogava com a melhor literatura de seu tempo, mas também colocou o seu nome entre os escritores que mais cultivava.

Por sua vez, em Machado de Assis, o escritor que nos lê, publicado em 2017, Hélio de Seixas Guimarães passa em revista sua extensa pesquisa em torno da obra machadiana. Resultado de sua tese de livre-docência (2013), o livro extrapola o retrato de um homem de origem humilde e enfatiza o reconhecimento de Machado como uma das referências nacionais de seu tempo: “Com menos de 30 anos, ele já era escritor respeitado, a ponto de chamar a atenção e inspirar a confiança de José de Alencar, naquela altura o grande patriarca da literatura brasileira”. Guimarães recorre à ampla documentação, o que lhe permite reexaminar a recepção à obra machadiana e a figuração dos seus leitores como parte de um projeto literário tocado por um homem consciente de seu protagonismo na cultura brasileira. O ensaísta situa as margens teóricas de uma crítica em que predominava o impressionismo, ocasião em que juízos de valor se orientavam por dados biográficos e critérios acanhados. Isso explicaria a surpresa que alguns de seus romances provocaram em seu tempo. Nem sempre as narrativas protagonizadas por Brás Cubas ou Rubião foram bem compreendidas pela crítica sedenta por descritivismo paisagístico e maior comprometimento do escritor em torno dos assuntos nacionais.

Guimarães lembra que o nome e a imagem de Machado de Assis ganharam forte impulso desde sua morte, em 1908. A seu ver, o “livro de Alcides Maya [Machado de Assis – Algumas notas sobre o humour], publicado em 1912, pode ser considerado o marco inicial da crítica post mortem e baliza importante para o processo de integração de Machado à vida e à literatura nacionais”. Após um relativo silêncio, outras vozes em torno do romancista se manifestaram na década de 1930. Manuel Bandeira comparou poesia e prosa machadianas, em benefício da segunda. Mário de Andrade parecia “ressentir-se da contenção de Machado, no seu excessivo controle sobre o texto, marcado pela frieza, por certo formalismo a que falta expressividade e subjetividade”. No mesmo decênio, Augusto Meyer, Lúcia Miguel Pereira e Astrojildo Pereira desenvolveram teses densas a respeito do escritor, recorrendo a uma análise psicológica do romancista e considerando sua extração social como fator interpretativo. Ainda em 1939, por iniciativa de uma comissão criada pelo governo de Getúlio Vargas, foi decretada a comemoração oficial do “primeiro centenário de nascimento de Joaquim Maria Machado de Assis”, com direito à promoção de um concurso homônimo. O Estado Novo fazia de Machado um símbolo brasileiro.

As décadas de 1950 e 1960 assinalaram um período de reavivamento da crítica. O ensaio da norte-americana Helen Caldwell provocou novas dissensões na crítica brasileira, inclusive ressalvas de Eugênio Gomes. Também Wilson Martins, “então professor da Universidade do Kansas”, posicionou-se firmemente em relação a Caldwell, supondo-a incapaz “de notar a ironia e o understatement machadianos”. Para Hélio Guimarães, durante as décadas de 1970 e 1980 houve um “adensamento” crítico no país. Alfredo Bosi, John Gledson e Roberto Schwarz protagonizaram um cenário de grande relevo para os estudos sobre a prosa machadiana. Fosse pela aproximação da literatura com a história, fosse pela abordagem predominantemente sociológica, fosse pela interpretação de fundo estético e em diálogo com os moralistas do século XVII, as figuras machadianas passaram a ser interpretadas como tipos sociais de relativa complexidade e ambivalentes do ponto de vista ético.

Desde os estudos de Raymundo Faoro, nos anos 1970, a vasta galeria machadiana passou a ser examinada sob as lentes da instabilidade emocional e do poder pessoal, exercido na sociedade classista do Segundo Reinado. Avultam sujeitos capazes de tiranias, impulsionados por veleidades. Em meio aos intensos debates, na década de 1990 outra pesquisadora norte-americana avançou na interpretação de Machado. Susan Sontag constatou “que a ansiedade com a recepção da obra, que permanece viva e continua a ter desdobramentos mais de um século depois da escritura e publicação de Brás Cubas, está inscrita no próprio romance”. A hipótese suscitou nova leitura da obra machadiana, concedendo maior fôlego à teoria do leitor implícito – figura prevista pelo autor durante a composição de suas narrativas.

Porta-vozes de novas leituras sobre Machado, é feliz coincidência que Castro Rocha e Hélio Guimarães tenham se dedicado aos protocolos de leitura suscitados pelo escritor. Em face dos numerosos enigmas legados pelo romancista, eles reforçam a necessidade de o leitor firmar pactos com os narradores machadianos e trilhar outras sendas, capazes de os conduzir para além da convenção literária. Afinal, quem garante não sermos produto inacabado de sua ficção?

Jean Pierre Chauvin é docente da Escola de Comunicações e Artes da USP e autor de O alienista: A teoria dos contrastes em Machado de Assis (Reis, 2005) e O poder pelo avesso na literatura brasileira: Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto (Annablume, 2013)


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