TECNOLOGIA

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Novo satélite de comunicações

SGDC trará ganhos tecnológicos para o país e melhorará o sistema de comunicações civil e militar

YURI VASCONCELOS | ED. 256 | JUNHO 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Eduardo Bonino
Um novo satélite de comunicações para o Brasil foi lançado ao espaço em 4 de maio do Centro Espacial de Kourou, na Guiana Francesa. Além de conferir maior autonomia à comunicação civil e à militar no país, o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC) também deverá trazer ganhos relevantes para a indústria aeroespacial brasileira porque o contrato de aquisição com a fabricante franco-italiana Thales Alenia Space previu a transferência de tecnologias para empresas brasileiras do setor. O SGDC deve levar o sinal de internet a todos os municípios brasileiros e será a espinha dorsal do sistema de comunicações das Forças Armadas. Atualmente, os satélites utilizados pelo Brasil, tanto na comunicação civil quanto militar, são gerenciados por estações terrestres localizadas fora do país ou controladas por empresas com capital estrangeiro. “Nos dois casos, o país fica vulnerável, porque há risco de o sigilo das informações ser violado e de o serviço ser interrompido em uma situação de conflito de interesse, levando parte das telecomunicações ao colapso”, comenta Eduardo Bonini, presidente da Visiona Tecnologia Espacial, de São José dos Campos (SP), empresa coordenadora do projeto.

Fruto de uma parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e o Ministério da Defesa, o projeto do SGDC custou R$ 2,1 bilhões. O satélite será operado pela Telebras e terá duas faixas de frequência. A chamada banda Ka, correspondente a 70% de sua capacidade, será usada para ampliar a oferta de banda larga no país, atendendo o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL), que prevê levar internet de qualidade para regiões mais carentes em infraestrutura e tecnologia. Já a banda X, com os 30% restantes, será de uso militar.

Com 5,8 toneladas e 7 metros de altura, o artefato está em órbita a 36 mil quilômetros da superfície terrestre. O funcionamento pleno do SGDC deve acontecer em seis meses depois do lançamento, período em que ele passa por ajustes técnicos e se posiciona no local exato para cobrir todo o território nacional e parte do oceano Atlântico. A vida útil do aparelho é estimada em 18 anos. Seu desenvolvimento teve início em novembro de 2013, quando a Telebras contratou a Visiona para coordenar o projeto. A companhia, uma joint-venture entre a Embraer e a própria Telebras, havia sido criada um ano antes com foco na integração de sistemas espaciais.

“Como naquela época o Brasil não possuía empresas com domínio tecnológico para projetar e construir um satélite do porte e com as especificações do SGDC, procuramos um fornecedor internacional entre as grandes companhias globais do setor”, conta Bonini. Ao fim de um processo seletivo que durou um ano, a franco-italiana Thales Alenia Space foi escolhida como fornecedora do artefato. A responsabilidade por colocar o satélite em órbita ficou a cargo da Arianespace, multinacional francesa que opera os foguetes Ariane a partir da base de lançamentos de Kourou, na Guiana Francesa.

Transferência de tecnologia
Um aspecto relevante do contrato firmado entre a Visiona e a Thales é uma cláusula que obriga a fabricante francesa a repassar tecnologias embarcadas no satélite a empresas e órgãos brasileiros. A Thales, pelo contrato, repassou uma lista de tecnologias espaciais acordada durante a fase de seleção. Em complemento à transferência de tecnologia, também foi formulado um Plano de Absorção de Tecnologia Espacial (PAT), coordenado pela Agência Espacial Brasileira (AEB), com a participação da Visiona, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Ministério da Defesa, MCTIC e Telebras. Foram enviados 51 engenheiros brasileiros funcionários dessas instituições à Thales, em Cannes e Toulouse, na França. Eles participaram durante três anos do desenvolvimento do satélite, desde as fases de projeto e engenharia até a construção do equipamento e sua integração ao foguete Ariane V.

Os engenheiros fizeram simulações de manutenção de órbita e atitude (posição do satélite em relação à Terra), montagem, integração e testes de módulos e de várias partes do engenho espacial, além da construção de subsistemas. Segundo Bonini, essa cooperação permitiu que os engenheiros brasileiros aprendessem a desenvolver o software de controle de atitude orbital, que, para ele, é o maior obstáculo na construção de satélites no Brasil. “Esse programa garantiu que os engenheiros participassem do desenvolvimento do SGDC, trabalhando lado a lado com técnicos e líderes da Thales em todas as fases do projeto”, conta Petrônio Noronha de Souza, diretor de Políticas Espaciais e Investimentos Estratégicos da AEB.

Iniciado em 2014, o PAT também capacitou os profissionais da Telebras e os militares que irão trabalhar nas estações de controle do satélite, situadas na Base Aérea de Brasília e em uma área da Marinha na Ilha do Governador, na capital fluminense. Segundo Souza, com a experiência adquirida durante a construção do satélite, os engenheiros também estarão aptos a atuar em futuros projetos espaciais civis ou militares, entre eles aqueles que integram o Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE) e o Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (Pese), que preveem a construção de outros satélites no país com participação de empresas nacionais.

Além da qualificação de recursos humanos via PAT, o contrato do SGDC contemplou um Acordo de Transferência de Tecnologia Espacial (ToT) firmado entre a Thales e a Agência Espacial Brasileira (AEB). O documento previu o repasse de cerca de 20 tecnologias críticas de satélites da empresa francesa para fabricantes nacionais, entre elas softwares do sistema de controle de atitude, componentes do sistema de propulsão e sistemas eletrônicos diversos. Em janeiro de 2015, a AEB divulgou o resultado de uma chamada pública com o nome das cinco primeiras empresas participantes do programa – uma do Rio Grande do Sul e quatro de São Paulo.

Conhecimento integrado
A Fibraforte Engenharia, de São José dos Campos, foi selecionada para receber capacitação técnica voltada ao domínio do ciclo de desenvolvimento do sistema de propulsão monopropelente (que usa apenas um combustível) para pequenos satélites, ao passo que a Orbital Engenharia, da mesma cidade, irá absorver tecnologias aplicáveis à construção de sistemas de potência e geradores solares para satélites. Já a AEL Sistema, com sede em Porto Alegre, recebeu o projeto de transferência de tecnologia de dois tipos de circuitos integrados para aplicações embarcadas em satélites.

Na Thales Alenia Space, na França, o SGDC entra em uma câmara de vácuo térmico que simula o ambiente espacial

Instalada no Parque Tecnológico Univap, em São José dos Campos (SP), a Equatorial Sistemas foi designada para receber tecnologias de controle térmico para satélites, e a Cenic Engenharia, também de São José dos Campos, ficou encarregada do desenvolvimento de estruturas mecânicas à base de fibra de carbono para cargas úteis de observação da Terra, como câmeras ópticas.

“As cinco empresas estão cumprindo um plano de trabalho e recebendo assistência periódica da Thales. Temos a intenção de fazer uma nova chamada e selecionar mais empresas para participar do programa. Pelo acordo com a Thales, podemos implementar a transferência de tecnologia em até dois anos após o lançamento do satélite, o que já estamos fazendo”, explica Petrônio Souza, da AEB. Segundo ele, um próximo satélite de comunicação brasileiro já deverá contar com equipamentos desenvolvidos por empresas nacionais.

“A curto e médio prazo não seremos capazes de fazer um satélite com esse grau de complexidade, mas poderemos implementar vários conteúdos nacionais”, analisa. Bonini, da Visiona, anunciou que a empresa já faz testes em um sistema de controle de atitude e órbita totalmente feito no Brasil. Se der certo, poderá ser utilizado em futuros satélites brasileiros.

Os painéis solares abertos

Com o SGDC, o Brasil regressa ao reduzido grupo de países cujos governos contam com seu próprio satélite geoestacionário de comunicações, que se encontra sempre em um mesmo ponto fixo no espaço, sobre a linha do Equador a uma altitude de 35.786 quilômetros, e gira na mesma velocidade da Terra.

Em 1985, o Brasil entrou nesse grupo por meio do Brasilsat A1 lançado pela Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel). “A Embratel, na condição de empresa estatal, foi pioneira ao lançar, em 1985, o primeiro satélite geoestacionário de comunicações do país, o Brasilsat A1, de uso essencialmente civil. Nove anos depois, ainda como empresa governamental, colocou em operação o Brasilsat B1, primeiro satélite geoestacionário brasileiro de uso civil e também militar, desativado em 2010”, conta Lincoln Oliveira, diretor-geral da Embratel Star One, nome atual da empresa privatizada em 1998. Na sequência vieram o B3 e o B4, esse último já na fase que o governo havia decidido privatizar as telecomunicações do país.

Além do SGDC, o Brasil utiliza cerca de 45 satélites de comunicação, todos eles pertencentes a companhias privadas, como Globalstar, Iridium e Embratel Star One, detentora da maior frota de satélites do Brasil e da América Latina. Hoje, a Embratel Star One é uma multinacional, pertencente ao grupo mexicano America Movil, que também é dono da operadora de telefonia celular Claro e controla no país nove satélites, entre eles os Star One C1 e C2, usados pelas Forças Armadas brasileiras.

Montagem do satélite de 7 metros de altura envolveu, além dos técnicos franceses, 51 engenheiros brasileiros

Sensoriamento remoto
A integração de todos os componentes do SGDC é o principal projeto da Visiona, que tem em seu quadro de funcionários cerca de 30 engenheiros, quase todos com mestrado, doutorado e com passagem pelo Plano de Absorção de Tecnologia Espacial. “Muitos de nossos profissionais trabalharam anos no Inpe e têm vasta experiência”, afirma Bonini. Segundo ele, ao participar como coordenadora do programa do SGDC, a empresa pôde se estruturar para outros desafios. “Temos condições de construir satélites menores, de 100 quilos, de órbita baixa, entre 600 e mil quilômetros, para aplicações de sensoriamento remoto, meteorologia, observação e coleta de dados”, diz o presidente
da Visiona.

Enquanto a demanda por novos dispositivos não vem, a empresa aposta em uma outra área de negócio: o desenvolvimento de projetos de sensoriamento remoto no Brasil e em países vizinhos em áreas como defesa, proteção ambiental, prevenção de desastres naturais, energia e planejamento territorial. A empresa faturou com esse serviço R$ 8,5 milhões em 2016 e conquistou projetos relevantes com o Inpe, no combate ao desmatamento da Amazônia, e com a Petrobras, no monitoramento ambiental da Bacia de Campos, no Rio de Janeiro. Para isso, a Visiona, que não é proprietária de satélites, firmou acordos de compra de imagens com alguns dos principais operadores de satélites de observação da Terra, entre eles Airbus, DigitalGlobe, Restec e SI Imaging Services. No total, ela terá acesso a uma rede de cerca de 28 satélites. “Essas parcerias nos permitem desenvolver soluções integradas na área de sensoriamento remoto”, avalia Bonini.


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