CARREIRAS

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Gestão de laboratório

Saber coordenar grupos de pesquisa é importante para criar uma agenda de trabalho sustentável envolvendo grandes projetos

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 258 | AGOSTO 2017

 

Revista Pesquisa FAPESP
Podcast: Euripedes Constantino Miguel
Liderar um grupo de pesquisa exige responsabilidade para coordenar e planejar os trabalhos da equipe, capacidade para conceber novas linhas de investigação e buscar financiamento para projetos. É preciso que todas as ações sejam articuladas, com objetivos claros e bem definidos, e que o líder tenha consciência de suas próprias limitações, de forma a delegar as atividades adequadamente. Construir um ambiente saudável de trabalho é importante para estimular a criatividade da equipe, otimizar os esforços de pesquisa e proporcionar bons resultados.

Os grupos de investigação constituem, ao mesmo tempo, um ambiente de produção de conhecimento e de formação de recursos humanos. Costumam reunir indivíduos em diferentes estágios de desenvolvimento profissional, de alunos de iniciação científica a pesquisadores de pós-doutorado. “Estudantes de doutorado e pós-doutorandos têm formação acadêmica mais sofisticada, com ideias aprimoradas e capacidade analítica mais apurada, diferentemente dos alunos de iniciação científica e de mestrado, ainda no início de sua trajetória acadêmica”, compara a cientista política Renata Mirandola Bichir, professora do curso de gestão de políticas públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), a USP Leste, em São Paulo. “Desse modo, é importante que o líder do grupo invista na construção de uma linguagem comum entre todos os membros da equipe, de modo a evitar relações assimétricas”, completa.

Renata coordena 10 pesquisadores em um grupo de pesquisa do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, cujo objetivo é entender o papel das políticas públicas e das instituições nos processos de desenvolvimento econômico e de redução da pobreza em grandes centros urbanos. Para a pesquisadora, é importante que o coordenador identifique as características de cada integrante da equipe, avalie suas capacidades e limitações e distribua as atividades de pesquisa de acordo com o nível de formação de cada um. “Isso ajudará a manter o grupo motivado e comprometido com os trabalhos em desenvolvimento”, ela destaca.

Um dos desafios dos líderes é a articulação entre os processos de ensino e pesquisa e as exigências de produtividade e apresentação de resultados. A publicação de artigos científicos, sobretudo em revistas de qualidade, tende a ser um objetivo comum à maioria dos projetos. Mas, para chegar lá, há um longo processo. Exige-se uma atividade consistente e contínua de revisão da literatura, a formulação de perguntas científicas relevantes e o estabelecimento de propostas metodológicas adequadas para que as hipóteses sejam testadas e os resultados, apresentados e discutidos em artigo ou livro. “Para manter a produtividade do grupo, tocamos vários projetos ao mesmo tempo, todos interconectados, o que implica cooperação entre os membros da equipe”, diz o psiquiatra Euripedes Constantino Miguel, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM) da USP.

Euripedes Miguel é responsável pela coordenação de vários projetos no Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes (INPD). Segundo ele, para que as atividades sejam desempenhadas de modo integrado e alinhadas aos objetivos de cada projeto, o coordenador precisa criar um ambiente de cooperação, para que todos possam se desenvolver em conjunto. “O processo de ensino não envolve apenas aspectos técnicos, mas o aprimoramento de habilidades sociais”, comenta. Para isso, ele envolve alunos em início de formação acadêmica com estudantes de pós-graduação. “Assim, os mais preparados instruem os iniciantes e o conhecimento é transmitido em cadeia”, conta Euripedes Miguel, destacando que, nos projetos que lidera, os pesquisadores mais graduados são direcionados a atividades que agregam maior valor à pesquisa, como a realização dos experimentos e análise e interpretação dos resultados.

É o que acontece também no Laboratório de Genética Molecular do Instituto de Biociências (IB) da USP, chefiado pela geneticista Lygia da Veiga Pereira. Como em muitos laboratórios norte-americanos e europeus, os pós-doutores são um elemento-chave em sua equipe. Além de coordenar tarefas, escrever artigos científicos e ajudar a conceber e executar novas linhas de pesquisa, eles também coorientam alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado.

Para Renata Bichir, o coordenador do grupo deve enfatizar aos pós-doutorandos a importância de auxiliar os alunos em início de formação. “Essa experiência os ajuda a aprimorar suas habilidades científicas, fazendo com que adquiram experiência que mais tarde será importante para dar autonomia no estabelecimento e gerenciamento de seus próprios grupos de pesquisa”, ressalta. Por isso, também é recomendável que os líderes incentivem os pós-doutores a participarem de cursos de gestão e liderança, para que aprendam a distribuir os trabalhos no laboratório, a motivar colegas e dissolver tensões, a manter as atividades dentro do orçamento e cronograma estipulados e a assegurar que todos trabalhem em prol do mesmo objetivo.

Reuniões de acompanhamento
Para que as atividades sejam desenvolvidas adequadamente, aconselha-se que os coordenadores realizem reuniões periódicas com os membros de sua equipe para discussão das metas estabelecidas e identificação de problemas e soluções. “Esses encontros são essenciais para o sucesso dos projetos e, por isso, precisam ser realizados regularmente”, explica Lygia, do IB-USP. Ela sugere que durante essas reuniões todos os pesquisadores façam apresentações sobre as atividades que desenvolveram na semana anterior, ressaltando sua importância para o andamento do projeto principal, independentemente se se trata de uma pesquisa de iniciação científica ou doutorado.

“Essa também é uma forma de manter todos motivados e comprometidos com o trabalho”, conta a bióloga Lúcia Lohmann. Também do IB-USP, ela coordena vários projetos, sendo o principal desenvolvido no âmbito da cooperação entre os programas Biota-FAPESP e Dimensions of Biodiversity, da National Science Foundation, uma das principais agências norte-americanas de fomento à ciência. “Essas reuniões ajudam os alunos a entender como suas contribuições individuais são fundamentais para o andamento do projeto como um todo.”

Lúcia realiza semanalmente reuniões com sua equipe para discutir artigos científicos relevantes para os trabalhos em andamento, avaliar manuscritos, propostas de auxílio, preparação de palestras, entre outras atividades. Para manter a produtividade do grupo, ela estabelece cronogramas envolvendo todos os subprojetos. “Com esses dados em mãos, avalio o que foi feito em cada ano e estipulo objetivos para o próximo”, explica. Ao mesmo tempo, para dar conta das exigências de produtividade e publicação de resultados, Lúcia orienta seus mestrandos e doutorandos a escreverem os capítulos de suas dissertações e teses na forma de artigo científico e a submeterem esses manuscritos às revistas científicas à medida que trabalham nos projetos. “Cada aluno no laboratório publica pelo menos um artigo científico como primeiro autor por ano.”

Busca por recursos
Outro desafio comum aos gestores envolve a busca por financiamento para os projetos de pesquisa. A fim de conseguir recursos, principalmente de agências de fomento, os pesquisadores precisam apresentar um projeto que é submetido ao processo de análise por pares (ver Pesquisa FAPESP nº 254). Mesmo que a solicitação seja atendida, pode acontecer de o valor concedido ficar aquém do que é solicitado, cabendo ao coordenador se reorganizar para atingir os objetivos iniciais do projeto com menos dinheiro do que o previsto. “Na falta de recursos, pode-se recorrer a editais e outras fontes alternativas de receita, como promoção de cursos pagos e parcerias com instituições privadas”, sugere Euripedes Miguel, da FM-USP. “O coordenador precisa usar sua experiência para se antecipar a essas e outras dificuldades.”

Tão importante quanto garantir recursos para o projeto é o relacionamento saudável do coordenador com sua equipe. “Temos de ouvir e entender os anseios dos pesquisadores e demonstrar preocupação com a carreira de cada um, colocando-nos à disposição para discutir qualquer assunto que ajude a garantir o desenvolvimento profissional dos membros da equipe”, destaca Euripedes Miguel. Para que isso aconteça, o coordenador deve exercer seu papel de liderança de forma distribuída e descentralizada, sem recorrer a estruturas hierárquicas muito rígidas. “Um bom coordenador precisa ser capaz de deixar o protagonismo de lado sempre que isso contribuir para o aprimoramento do trabalho em equipe”, recomenda o pesquisador.


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