EDITORIAL

Print Friendly

Um novo modelo industrial?

ALEXANDRA OZORIO DE ALMEIDA - DIRETORA DE REDAÇÃO | ED. 259 | SETEMBRO 2017

 

Diferentemente das outras revoluções industriais, assim classificadas a posteriori, a quarta foi anunciada previamente, em 2011: a Indústria 4.0 foi apresentada na Alemanha, o mais industrial dos países mais ricos, como um projeto para promover a competitividade por meio da aplicação maciça de novas tecnologias na manufatura.

Também chamada de manufatura avançada, a Indústria 4.0 não tem uma definição consensual, mas envolve fábricas inteligentes com o uso combinado de tecnologias como Internet das Coisas, análise de big data, digitalização da manufatura e inteligência artificial. Alguns dos seus princípios básicos são resposta em tempo real, descentralização, interoperabilidade e orientação ao serviço. As mudanças devem ocorrer em todas as etapas da produção e do consumo, produzindo efeitos significativos na economia mundial.

O papel e as possibilidades do Brasil nesse novo contexto ainda estão sendo construídos. O seu desempenho depende, em grande parte, da base industrial e de elementos humanos como o espírito empreendedor, a qualidade de sua força de trabalho e a base de conhecimento das universidades, institutos e organizações produtoras e difusoras de conhecimento. O país não tem uma indústria eletrônica robusta, importante para a manufatura avançada, e seus esforços tecnológicos são relativamente modestos, mais baseados na reprodução de processos e produtos já existentes. A manufatura avançada também está associada a um consumo informado, o que é difícil em uma sociedade com baixo nível de escolaridade e renda. Mas o país possui uma indústria suficientemente grande, diversificada e integrada que lhe permite aspirar a ter um modelo de Indústria 4.0 com participação relevante de conhecimento.

Esta edição trata dessa promessa de novo paradigma industrial por várias perspectivas. A reportagem de capa apresenta o conceito de manufatura avançada e alguns exemplos que começam a surgir no Brasil. Esse novo modelo deve afetar as relações de trabalho e mudar as demandas por qualificações profissionais, tema da seção Carreiras. Reportagem destaca uma das tecnologias que a sustenta, a Internet das Coisas. Em entrevista à revista durante sua passagem pelo Brasil, o economista coreano Keun Lee, presidente da International Schumpeter Society, falou sobre assuntos que permeiam a discussão, como os ciclos de mudança de liderança em setores da indústria.

Um fenômeno que está relacionado às mudanças na manufatura é o PSS, ou Product-Service System, ou servitização. Nessa nova proposição, as tradicionais vendas de bens como eletrodomésticos são substituídas por um sistema comercial no qual o cliente paga pelo usufruto e a empresa continua proprietária do bem e responsável pela sua manutenção e descarte.

***

Deixando de lado a alta tecnologia, uma leitura instigante é a entrevista do linguista Ataliba Castilho, concedida ao editor Carlos Fioravanti. O estudioso da língua falada e do português brasileiro fala de mudanças recentes identificadas na oralidade – por exemplo, o plural sendo expresso apenas no artigo, e não no substantivo, como em “os menino” – com a naturalidade de quem observa o idioma como um objeto vivo de estudo, e não da perspectiva apenas de guardião da língua culta.


Matérias relacionadas

RENAN PADOVANI
Startup usa visão computacional para inspecionar peças de automóveis
PODCAST: MAISA ARAÚJO
Relógio biológico é o tema premiado com o Nobel de Medicina
MAX LANGER
Pesquisadores reconstituem cérebro de dinossauro