BOAS PRÁTICAS

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Um plano para promover a integridade

Instituto Karolinska estabelece medidas para prevenir casos de má conduta como o do cirurgião Paolo Macchiarini

ED. 261 | NOVEMBRO 2017

 

O Instituto Karolinska, em Estocolmo, Suécia, apresentou um balanço do primeiro ano de implementação de um plano concebido para corrigir falhas que colocaram em risco a integridade da pesquisa na instituição, uma das mais respeitadas da Europa e conhecida por selecionar os vencedores do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia. Um dos pilares da estratégia envolve as rotinas administrativas para o recrutamento de pesquisadores, com a introdução de mecanismos redundantes para obter referências e verificar os dados registrados em currículos de candidatos. A responsabilidade por apurar casos de má conduta passou a ser dividida pela vice-chancelaria e o escritório jurídico da instituição, com o apoio de um especialista designado para coordenar a investigação.

O plano se baseou em recomendações feitas por uma auditoria interna e por um relatório produzido por um investigador independente, o jurista Sten Heckscher, a respeito de um caso de má conduta envolvendo o cirurgião italiano Paolo Macchiarini, pioneiro em transplantes de traqueia. As investigações concluíram que o médico divulgou informações inverídicas em seu currículo e publicou dados enviesados sobre o desempenho dos transplantes em sete artigos científicos. A instituição foi criticada por manter o pesquisador em seus quadros mesmo quando já havia evidências de má conduta, por omitir-se na aplicação de regulamentos e no monitoramento de dados de pesquisa e por cometer falhas no processo de recrutamento. Três membros da direção do Instituto Karolinska renunciaram no ano passado em razão do escândalo.

Macchiarini foi contratado em 2010 com dupla função: a de professor visitante do Instituto Karolinska, encarregado de conduzir pesquisa básica sobre células-tronco, e a de cirurgião no hospital de ensino da instituição. O italiano propunha testar uma cirurgia experimental utilizando traqueias artificiais recobertas com células-tronco extraídas dos pacientes. A técnica foi aplicada em 2012 em três pacientes que já haviam esgotado outros recursos terapêuticos e os resultados foram desanimadores: apenas um deles sobreviveu e, mesmo assim, está hospitalizado até hoje.

Em 2013, o hospital de ensino interrompeu os transplantes e dispensou Macchiarini, que seguiu trabalhando apenas como pesquisador no Karolinska. Ele anunciou, então, que levaria adiante as cirurgias com traqueias artificiais em uma escola de medicina em Krasnodar, na Rússia, e recebeu autorização da instituição sueca para essa atividade.

Em 2014, Macchiarini enfrentou a primeira acusação de má conduta feita por um pesquisador belga, mas acabou inocentado pelo instituto. Em seguida, foi acusado em duas ações diferentes de publicar dados enviesados em sete artigos científicos, descrevendo de forma parcial o estado pós-operatório de pacientes e a funcionalidade dos transplantes. Os acusadores trabalharam no hospital de ensino com o cirurgião e alguns deles eram coautores dos papers sob suspeita. Uma análise do caso feita por Bengt Gerdin, professor emérito da Universidade de Uppsala, concluiu que havia indícios de má conduta científica, mas ainda assim o italiano foi absolvido, com a ressalva de que suas pesquisas não haviam cumprido os padrões de qualidade exigidos pela instituição. No final de 2015, o contrato de Macchiarini no Instituto Karolinska foi renovado.

O caso ganhou contornos de escândalo no início de 2016, quando a revista norte-americana Vanity Fair publicou um perfil de Macchiarini mostrando que ele inflou seu currículo com cargos de prestígio em universidades que, na verdade, nunca ocupou. Ao mesmo tempo, um documentário exibido na televisão sueca mostrou como pacientes transplantados sofreram e morreram depois da cirurgia e levantou questões sobre os cuidados e a ética dos experimentos. Um dos casos reportados foi o de uma jovem operada no hospital da Rússia, que morreu. Na Suécia, ela não seria elegível para a operação experimental por não correr risco de vida.

Em fevereiro, o Instituto Karolinska decidiu abrir uma ampla investigação independente sobre a conduta do pesquisador. O biólogo Urban Lendahl renunciou à função de secretário do Comitê Nobel no Karolinska por estar sendo investigado. O vice-chanceler Anders Hamsten pediu demissão ao anunciar que um novo inquérito havia sido aberto, com base em indícios de que o cirurgião teria falsificado dados sobre um transplante pioneiro realizado na Islândia que embasava vários de seus artigos científicos. O pró-reitor de pesquisa Hans-Gustaf Ljunggren também deixou o cargo. Só então Macchiarini foi demitido.

Prédio do instituto sueco: conjunto de estratégias para superar escândalo

Comitê de ética
Os responsáveis pela aplicação do plano de ação dizem que a tarefa está levando mais tempo do que o previsto. “Começamos a implementar algumas medidas, melhorando a comunicação dentro do instituto e investigando o ambiente dos laboratórios, mas ainda há muito o que fazer”, disse ao site Science Business a vice-chanceler assistente do instituto, Karin Dahlman-Wright, que é professora de endocrinologia molecular da instituição. Uma das propostas que ainda não saiu do papel é a organização de um comitê de ética, encarregado não de investigar casos de má conduta, mas de atuar na promoção de boas práticas na instituição – seus membros serão indicados em breve. “Esse é um elemento vital para promover uma sólida plataforma ética e será implementado logo”, disse Dahlman-Wright.

Desde 2010, está disponível um sistema eletrônico para registro de dados de pesquisa, cuja utilização, contudo, não era obrigatória – a partir do ano que vem será. A divisão de responsabilidades entre o instituto e seu hospital foi aperfeiçoada. Agora, respondem de forma solidária pela integridade das pesquisas clínicas o gestor do hospital de ensino, o líder do projeto no Instituto Karolinska e o chefe do departamento ao qual ele está vinculado.

O treinamento de líderes é outro foco do plano. Chefes de departamento e gestores terão de fazer um curso obrigatório sobre ética e governança a partir de 2018, baseado em diretrizes que ainda estão sendo definidas. Outros tipos de treinamento serão implementados. Os novos pesquisadores e funcionários terão à disposição cursos de curta duração com foco em ética e gestão de dados de pesquisa. Um website com linguagem simples sobre regulamentos e boas práticas deverá ser criado para nortear o trabalho no instituto.

Ao tomar posse como novo vice-chanceler, no final de setembro, o neurocientista Ole Petter Ottersen resumiu os desafios do Instituto Karolinska. “Há coisas fantásticas acontecendo na nossa instituição, como a construção de edifícios e a consequente abertura de novas oportunidades em pesquisa e educação. Mas os pré-requisitos para a excelência em pesquisa e educação são uma boa cultura de trabalho e a consciência ética”, disse, segundo consta no site do instituto.


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