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Dimas Antônio Casemiro

O desaparecido político Dimas Antônio Casemiro é identificado entre ossadas da vala clandestina de Perus

Trabalho envolveu análises genéticas e exame físico da ossada, encontrada há quase 30 anos

LÉO RAMOS CHAVES Painel no GTP traz retratos de 42 desaparecidos que podem ter sido sepultados em Perus: Dimas Casemiro no centroLÉO RAMOS CHAVES

Na semana passada, a equipe do Grupo de Trabalho Perus (GTP) teve um motivo para comemorar: confirmou que Dimas Antônio Casemiro, dirigente do Movimento Revolucionário Tiradentes morto em abril de 1971, foi sepultado na vala clandestina do cemitério Dom Bosco em Perus, zona norte de São Paulo. “Conseguimos uma identificação extremamente complexa pelas características do material ósseo e dentário, e o contexto histórico em que os remanescentes ósseos se encontravam após 47 anos de espera pelos familiares”, afirma o perito médico-legista e geneticista forense Samuel Ferreira, coordenador científico do GTP e diretor do Instituto de Pesquisa de DNA Forense, IPDNA.

O feito é resultado de um trabalho multidisciplinar (ver Pesquisa FAPESP nº 250), com participação decisiva da Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas (ICMP) por intermédio de análises genéticas realizadas em um laboratório em Sarajevo, na Bósnia. O diretor de Ciência e Tecnologia da ICMP, o bioquímico norte-americano Thomas Parsons, veio a São Paulo entregar os resultados, cinco meses depois de Ferreira ter depositado pessoalmente o primeiro lote com 100 amostras retiradas das ossadas armazenadas na sede do GTP, mantida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) no bairro paulistano Vila Mariana, além de 77 amostras de sangue de familiares. “Selecionamos entre aqueles com sexo, idade, estatura e traumas compatíveis com os desaparecidos que esperávamos encontrar”, explica Samuel, que percorreu 44 mil quilômetros pelo Brasil para encontrar as famílias e coletar sangue. O DNA retirado de uma das ossadas tinha semelhanças com as amostras de sangue da família de Dimas Casemiro: uma irmã, um irmão e o filho, que perdeu o pai aos 3 anos.

Em seguida, foi a vez da equipe do GTP comparar os resultados aos exames antropológicos, odontológicos e às informações ante mortem já registradas. A estatura e a idade estimada eram compatíveis, mas insuficientes para a identificação. “Foi um trabalho conjunto entre todas as etapas”, conta a bioantropóloga Mariana Inglez, responsável pela análise post mortem no comitê de identificação. “Não daria para ter a certeza que temos só com a genética nem só com as características físicas.”

Uma fratura na mandíbula se destaca. “A marca é compatível com a descrição de uma das lesões por tiro”, diz Mariana. De acordo com os relatórios da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Casemiro foi morto entre 17 e 19 de abril de 1971, alvejado por arma de fogo em tiroteio simulado – um recurso frequentemente utilizado pela ditadura militar. “Os outros tiros devem ter atingido apenas tecidos moles, por isso não temos outras marcas nos ossos”, explica Ferreira. Também há partes ausentes do esqueleto, de acordo com Mariana.

O próximo passo será a devolução dos restos mortais à família, para que finalmente possa dar forma ao luto. Os procedimentos legais que envolvem esse processo ainda não foram iniciados, de maneira que ainda não há previsão de quando acontecerá. No meio do ano Ferreira pretende entregar ao ICMP mais um lote com 250 amostras para análises genéticas. O GTP já analisou 756 das 1.047 caixas que abrigam ossadas, nem todas de uma única pessoa. A previsão é encerrar as análises físicas até o fim deste ano.