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carreiras

Das redações para o consultório

Após trabalhar como jornalista no Brasil e na Europa, Christian Kieling optou pela medicina e hoje pesquisa depressão na adolescência

arquivo pessoalAs incertezas tão comuns no início da vida acadêmica levaram o gaúcho Christian Kieling a se inscrever em dois cursos de graduação diferentes em 1997. Prestou vestibular para direito, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e jornalismo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). “Fui aprovado nos dois cursos e, como as aulas de um eram de manhã e as do outro à noite, matriculei-me em ambos”, relembra.

Com o tempo, o jornalismo se tornou uma via cada vez mais atraente. “Pedi transferência para o jornalismo na UFRGS em 1998”, ele conta. Em 2000, um ano antes de concluir a graduação, Kieling iniciou um estágio na RBS, grupo de comunicação de Porto Alegre.

Um dia, enquanto escutava rádio, sintonizou de passagem uma estação católica que anunciava uma vaga de estágio na Rádio Vaticano. “Decidi me candidatar e me chamaram”, diz. Kieling trabalhou dois meses em Roma na redação brasileira da emissora antes de voltar para a RBS. Aos 21 anos, ainda inseguro sobre a escolha pelo jornalismo, candidatou-se a uma vaga na Rádio França Internacional, em Paris, onde ficou por um mês.

Durante o período em que esteve na França, Kieling leu alguns livros do neurologista inglês Oliver Sacks. “Ele apresentava uma visão diferente da neurologia, com um viés antropológico”, conta. “Foi quando passei a me interessar por questões de neurociências.” De volta ao Brasil, prestou novamente vestibular, dessa vez para medicina, na UFRGS. “Formei-me em jornalismo na terceira semana de aula em medicina”, lembra. Logo ele iniciou sua iniciação científica em psiquiatria, trabalhando como assistente de pesquisa no Programa de Déficit de Atenção e Hiperatividade do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

Como já tinha uma graduação concluída, foi exortado por seu orientador a tentar o mestrado em psiquiatria antes mesmo de concluir o curso de medicina. Kieling apresentou sua dissertação em setembro de 2007, três meses antes de concluir a graduação. Passou por residências médicas de psiquiatria e de psiquiatria da infância e da adolescência, durante as quais realizou seu doutorado. Em seguida, ingressou em um estágio de pós-doutorado na mesma instituição, concluído em 2015. Foi nessa época que fundou o Programa de Depressão na Infância e na Adolescência (ProDIA) do HCPA.

Hoje professor da UFRGS, o psiquiatra coordena uma equipe de mais de 20 pessoas que buscam compreender aspectos sociodemográficos e neurobiológicos associados ao risco de desenvolver depressão durante a adolescência.

Mais recentemente, sua equipe foi contemplada pela organização britânica MQ com uma verba de pesquisa de £ 1 milhão (aproximadamente R$ 4,3 milhões). O valor foi concedido após Kieling e outros 30 pesquisadores do mundo todo terem se reunido por três dias em um hotel nos arredores de Londres para formar grupos e elaborar uma proposta de estudo em saúde mental. Ao final, os times defenderam suas ideias para uma banca, que definiu o destino do financiamento.