HUMANIDADES

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Modernismo revisitado

Pesquisadores repensam o lugar do movimento vanguardista paulistano na cena cultural brasileira

CHRISTINA QUEIROZ | ED. 266 | ABRIL 2018

 

Objeto de estudo de críticos, historiadores e pesquisadores da área de literatura durante quase um século, a Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, tem seu protagonismo no cenário cultural brasileiro revisto. Na esfera literária, estudos recentes indicam que a semana faz parte de um processo iniciado no final do século XIX, envolvendo o trabalho de autores até então pouco conhecidos, que atuaram em diferentes regiões do país e não estavam restritos ao meio intelectual paulistano.

Inspirado por vanguardas europeias, o modernismo foi um movimento artístico que procurou romper com características estéticas então consideradas tradicionais. Na literatura brasileira, a abolição de versificações utilizadas pelos poetas parnasianos e a produção de textos sobre a identidade nacional, em uma linguagem popular, foram algumas de suas diretrizes mais significativas.

Na historiografia literária nacional, a Semana de Arte Moderna é considerada o ponto de partida no processo de renovação das letras. Sob a liderança de Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Menotti Del Picchia (1892-1988), dezenas de intelectuais, principalmente paulistanos e cariocas, participaram do evento, proferindo conferências e fazendo a leitura de textos e poemas. Em comum, o desejo de transgredir e superar os temas e as formas que permeavam a literatura produzida até então.

Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora do Departamento de Sociologia e diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), recorda que as revisitações críticas ao modernismo ganharam corpo somente a partir dos anos 1990. “Até os anos 1980, principalmente no cenário acadêmico paulistano, o movimento foi tratado como se estivesse acima de qualquer avaliação crítica”, conta. Segundo Maria Arminda, que desde 2011 desenvolve o projeto de pesquisa “Trajetos do modernismo no Brasil: O romance de 1930 e a sombra do passado no trânsito do moderno”, isso aconteceu, em parte, porque a criação da USP envolveu pessoas ligadas ao cenário cultural modernista. Esses intelectuais passaram a refletir sobre o modernismo paulistano, tratando-o como ponto de inflexão na cultura do Brasil e contribuindo para difundir a tese de que ele teve papel central no processo de renovação do campo literário.

Estudo sobre revista editada em Minas Gerais permitiu revelar aspecto ambivalente do modernismo

A disseminação de abordagens da história a partir da vida cotidiana permitiu um novo olhar sobre o modernismo, propõe Mônica Pimenta Velloso, historiadora e pesquisadora na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. A história passou a ser pensada também da perspectiva da cultura, das práticas e representações construídas pelos diferentes grupos sociais que compõem a vida cotidiana. “A mudança influenciou as análises sobre o modernismo brasileiro, que passaram a priorizar as diversidades urbanas e regionais”, diz.

Autora dos livros Modernismo no Rio de Janeiro (KBR, 2015) e História e modernismo (Autêntica, 2010), Mônica considera que essa mudança de perspectiva permitiu que estudiosos do movimento vissem que as relações entre centro e periferia eram mais complexas do que se pensava e que autores considerados de menor importância também tiveram participação significativa no desenvolvimento do modernismo no Brasil.

O ano de 1922 foi emblemático à criação de memórias no país, por causa das comemorações do centenário da Independência, afirma Mônica. Além da Semana de Arte Moderna, o Brasil realizou a Exposição Internacional, evento oficial organizado no Rio para exibir ao mundo o progresso da indústria brasileira. O evento foi objeto de críticas das revistas semanais de humor. Diferentemente da Exposição Internacional, a Semana de 22 foi bem-sucedida em sua pretensão de transformar-se em marco histórico. A leitura consagradora de críticos e historiadores contribuiu para a construção dessa posição no imaginário cultural brasileiro.

Maria Arminda lembra que a primeira revisão do movimento já aconteceu na década de 1930, com a emergência de autores do romance social do Nordeste, como José Lins do Rego (1901-1957) e Jorge Amado (1912-2001). A crítica leu esses romancistas como representantes da segunda geração modernista, denominação que pressupõe que eles partiram dos ideais da primeira geração para compor seu universo narrativo. Porém, os líderes do modernismo paulista – Mário de Andrade e Oswald de Andrade – percebiam que essa literatura se distanciava das propostas experimentais que caracterizaram o momento inicial do movimento em São Paulo. “Oswald de Andrade, por exemplo, passou a usar o termo ‘búfalos do Nordeste’ para se referir a esses autores, aludindo à sua literatura de denúncia social e tom sóbrio, que diferia daquela produzida pelos intelectuais em 1922, mais interessada em captar a velocidade das metrópoles com viés transgressor”, compara.

Pesquisas recentes procuram contradizer leituras que colocam a literatura da década de 1930 como repercussão do modernismo paulistano. Essa proposição é corroborada por Mônica, ao indicar que Manaus, Belém e Recife tiveram acesso à cultura vanguardista europeia sem a mediação de São Paulo ou do Rio. “Hoje sabemos que o moderno brasileiro resulta de um amálgama complexo envolvendo distintas tradições e releituras, combinando localismo, nacionalismo e cosmopolitismo.” Segundo ela, esse processo de renovação não teve apenas a Semana de 22 como marco: “Localizo em intelectuais da geração anterior algumas dessas vozes, entre eles Silvio Romero [1851-1914] e Euclides da Cunha [1866-1909]”. Mônica lembra que, em sua trajetória, Romero fez um mapeamento da cultura brasileira, criando instrumentais de pesquisa para poder estudá-la. “O projeto de organizar e mapear a cultura nacional antecede e dialoga com o histórico de estudos considerados pioneiros que Mário de Andrade desenvolveu a partir dos anos 1930 sobre o folclore brasileiro”, detalha. Além disso, ela considera que Euclides da Cunha já buscava criar símbolos da identidade nacional ao recorrer ao imaginário do sertanejo em suas narrativas. “Antes do século XX já existia uma geração intelectual movida por uma sensibilidade modernista”, argumenta.

Em um projeto de pesquisa recém-concluído, Humberto Hermenegildo de Araújo, professor aposentado no Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), identificou a existência de um esforço de renovação literária na região anterior à Semana de 22. Como exemplo, ele lembra que a primeira tradução e publicação do Manifesto futurista, do italiano Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944), que difundia ideais estéticos vanguardistas europeus inspiradores dos paulistanos em seu programa modernista, aconteceu no Rio Grande do Norte, em 1909. Além disso, Araújo conta que os primeiros voos comerciais da Europa para a América do Sul chegavam a Natal, mobilizando poetas da cidade como Jorge Fernandes (1887-1953) a escrever versos sobre aviões e os progressos da civilização, temática que também permeou a poética de modernistas da primeira geração. “Havia um interesse pelo novo em todo o Brasil. Naquele momento, o país recebia estímulos extraliterários e se relacionava com a modernidade, com a valorização das máquinas, do mundo urbano e da ideia de progresso”, afirma Araújo.

No caso do único livro de poemas publicado por Jorge Fernandes, resenhado por Antônio de Alcântara Machado (1901-1935), importante escritor e crítico literário da época, Araújo explica que, ao mesmo tempo que eram motivados por elementos culturais tradicionais de Natal, seus versos continham aspectos vanguardistas da poesia visual, que só viria a ser desenvolvida no Brasil pelos concretistas na década de 1950. Embora participasse da vida intelectual do país, tendo recebido Manuel Bandeira (1886-1968) e Mário de Andrade quando estiveram no Nordeste, e publicado poemas na Revista de Antropofagia, editada em São Paulo no final da década de 1920, Fernandes ficou esquecido até meados dos anos 1970, quando foi revisitado por estudos empenhados em desvendar movimentos literários para além do eixo Rio-São Paulo. “As culturas regionais repercutiram no modernismo paulistano e pesquisas recentes mostram como lugares considerados periféricos produziram conhecimento que foi absorvido por áreas centrais”, enfatiza Araújo. Em estudos que relativizam a centralidade dos intelectuais paulistanos no processo de renovação literária, o pesquisador lembra que Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), historiador e folclorista potiguar, foi o principal divulgador do modernismo de 22 no seu estado, da mesma maneira que ajudou a difundir a cultura regional entre autores paulistanos. Segundo Araújo, quando Mário de Andrade empreendeu viagens etnográficas pelo Brasil no final da década de 1920, Cascudo o recebeu e o guiou pelo Rio Grande do Norte e as visitas permitiram ampliar a visão que o paulistano tinha do Brasil, até então mais centrada nos meios urbanos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Macunaíma, publicado por Mário de Andrade em 1928, foi escrito após essas viagens.

Para Araújo, as atuais pesquisas que buscam revelar autores, obras ou aspectos desconhecidos do modernismo privilegiam o estudo de documentos que vão além do texto literário, como diários, correspondências e periódicos regionais, entre eles Leite criôlo, que circulou em Belo Horizonte em 1929. Miguel de Ávila Duarte, doutor em estudos literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), participou do processo de edição, em 2012, de um livro contendo 19 edições fac-símile desse periódico. Segundo ele, nos anos 1920, Leite criôlo teve participação significativa na rede de revistas modernistas. “Prova disso é que vários poemas do paulista Raul Bopp [1898-1984] foram publicados no periódico mineiro, sob o pseudônimo Jacop Pim Pim, ao lado de versos de autores de outros estados, como Pará e Paraná.” Duarte explica ainda que Leite criôlo é mencionado repetidas vezes na Revista de Antropofagia, publicação que se tornou uma das mais conhecidas na história do movimento. “Apesar da importância no início do modernismo, Leite criôlo deixou de ser considerado significativo nas décadas seguintes, por não se encaixar na narrativa que coloca o grupo paulistano como central no processo de renovação da literatura nacional”, afirma.

O pesquisador mineiro relembra que após a revisão feita entre os anos 1930 e 1940 pelos próprios autores que participaram da Semana de 22, o modernismo paulistano voltou a ser objeto de estudos acadêmicos na década de 1950, quando emergiram análises aprofundadas sobre obras como Macunaíma. Na comemoração dos 50 anos da Semana, o modernismo paulistano consolidou sua posição hegemônica na historiografia com a edição de obras completas e publicações em fac-símile de revistas como Klaxon, que circulou em São Paulo entre 1922 e 1923.

No ensaio “Estéticas da ruptura”, Eneida Maria de Souza, professora de teoria literária da UFMG, defende que o culto à novidade e o impulso de romper com movimentos anteriores balizou o discurso crítico na análise das obras literárias. “A ditadura do novo representou uma tendência comum às teorias vanguardistas brasileiras que, inspiradas pelas europeias, pretendiam acompanhar no âmbito cultural as transformações modernizantes da técnica e da revolução industrial”, escreve a pesquisadora. Com isso, obras que ficavam à margem dessa “estética da ruptura” foram menos privilegiadas no discurso crítico, que passou a valorizar trabalhos alinhados à ideia de vanguarda, em detrimento da literatura com características estéticas associadas a movimentos anteriores, como o parnasianismo.

A atual dinâmica de revisitações do modernismo literário advém da relação que ele estabelece com o processo de modernização do Brasil, avalia Maria Arminda. “Nossa modernização se encontra hoje em uma encruzilhada. A ideia de que a sociedade caminha em constante progresso foi posta em dúvida”, observa. “Esses questionamentos nos têm feito repensar nosso ideal de modernidade e a forma como o modernismo foi tratado pela historiografia literária.”

Intelectuais da revista Sur: ícones da literatura vanguardista argentina ganharam projeção internacional

Vanguarda argentina

O movimento vanguardista paulistano não é o único que passa por um processo de revisão. Em livro recém-publicado, o sociólogo Sérgio Miceli, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, faz uma análise crítica de escritores consagrados do movimento de vanguarda argentino. Em Sonhos da periferia: Inteligência argentina e mecenato privado, o pesquisador se debruça sobre as atividades intelectuais que aconteceram em torno da revista Sur. Criada em 1931, a publicação teve a escritora Victoria Ocampo(1890-1979) como uma de suas principais patrocinadoras e Jorge Luís Borges (1899-1986) como seu autor mais célebre.

No livro, Miceli analisa a história da publicação a partir de duas perspectivas. Na primeira, reconstitui o panorama social e político no qual a revista estava inserida e reflete sobre o processo de consagração desses intelectuais como ícones da literatura vanguardista argentina. Um dos efeitos desse processo, conforme o pesquisador, foi ter encoberto, em um primeiro momento, o trabalho de escritores e poetas de classes sociais menos abastadas, entre eles Alfonsina Storni (1892-1938) e Horacio Quiroga (1878-1937). “Esses escritores faziam sucesso ao publicar textos na grande imprensa e sua exclusão do ambiente de Sur não teve a ver com ausência de qualidade literária. Foi a distância social que motivou esse rechaço”, afirma. Segundo o sociólogo, estudos recentes sobre a historiografia literária argentina passaram a perceber o papel significativo desses autores, que se tornaram reconhecidos pela crítica.

O segundo ponto de atenção de Miceli envolve a comparação com o romance social brasileiro da década de 1930. Para ele, as atividades literárias dos escritores reunidos em torno da revista Sur levaram Buenos Aires a se tornar o epicentro cultural do mundo hispânico. Entre outros motivos, isso ocorreu por causa do idioma. Publicados em espanhol, os livros desses intelectuais circulavam em diferentes países da América Latina e também na Espanha. Miceli explica que os temas abordados nas obras tinham caráter universal, atraindo a atenção de leitores de distintas nacionalidades. Diferentemente do grupo de Sur, os escritores brasileiros do romance social da década de 1930 baseavam suas narrativas no desenvolvimento de sagas autobiográficas, misturando histórias pessoais com a história social da nação.

Na visão de Miceli, tal literatura era permeada por temas locais, restringindo o interesse de leitores estrangeiros pelos livros. “Graciliano Ramos converte sua realidade em matéria ficcional, enquanto Borges satiriza estereótipos relacionados à identidade nacional”, compara. Com isso, a literatura do autor argentino se distancia do que aqui se tornaria o “paradigma realista” brasileiro, e ele “foi alçado ao pódio de escritor mundial, cosmopolita, capaz de agenciar universos de experiência representativos de uma pretensa condição humana”.  O pesquisador afirma que, enquanto autores como Borges ganharam projeção internacional, os escritores brasileiros ficaram confinados à cena doméstica. Miceli destaca ainda que Victoria Ocampo e outras intelectuais mulheres que orbitavam ao redor de Sur eram protagonistas na cena cultural, algo que tampouco encontra paralelos no Brasil. “No modernismo brasileiro, as poucas escritoras ocupavam uma posição marginal na cena literária, como foi o caso de Patrícia Galvão, a Pagu, que só teve seu trabalho reconhecido após falecer”, detalha.

Como ponto em comum entre as dinâmicas literárias dos dois países, Miceli aponta a incorporação de referências das vanguardas europeias, assim como a existência de um movimento de flutuação no processo de reconhecimento de escritores e poetas, que muda à medida que avançam os estudos sobre intelectuais menos conhecidos. “Aqui, como lá, a consagração de autores tem oscilado em função de circunstâncias que não necessariamente guardam relação com a qualidade das obras”, conclui.

Artigo científico
ARRUDA, M. A. N. El concepto de formación en tiempos críticos: Esbozo de reflexión. Sociológica. v. 90, p. 47-68. 2016.


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