Obituário

Ponte para o mundo

Alexandre Wollner implantou o moderno conceito de identidade visual e ajudou a fundar o ensino acadêmico de design no Brasil

Alexandre Wollner dá depoimento à mostra "Maneiras de Expor: arquitetura expositiva de Lina Bo Bardi", realizada no Museu da Casa Brasileira, em 2014

Imagem: Isa Grinspum Ferraz - Cortesia do Museu da Casa Brasileira

O designer gráfico Alexandre Wollner contava que passou parte da infância acompanhando o cotidiano da mãe, costureira, e do pai, dono de uma tipografia. “Imagino o menino pequeno, fascinado ao observar os dois trabalhando com a transformação da matéria”, comenta Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, professora titular de design da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Os pais haviam imigrado para São Paulo onde nasceu o garoto que se tornaria uma das maiores referências em design no Brasil, um dos responsáveis por inaugurar o ensino acadêmico na área, além de implantar o conceito moderno de identidade visual no país com um trabalho marcado por características geométricas, lógicas e funcionais. O designer morreu dia 4 de maio, em decorrência de um acidente vascular cerebral. Deixou mulher e filho.

Wollner integrou a primeira turma do curso de iniciação artística do Instituto de Arte Contemporânea do Museu de Arte de São Paulo (Masp) entre 1951 e 1953, e teve como professores o crítico, expositor e negociador de obras de arte Pietro Maria Bardi (1900-1999) – um dos criadores do museu –, e os arquitetos Lina Bo Bardi (1914-1992) e Jacob Ruchti (1917-1974). “Ele era um jovem de condições socioeconômicas modestas e começou a trabalhar com design gráfico produzindo cartazes para divulgação de exposições no museu”, conta Maria Cecília. Em 1951, participou da montagem da exposição do suíço Max Bill (1908-1994), artista plástico e designer que estudou na vanguardista Bauhaus, escola alemã de design, arquitetura e artes plásticas, e importante referência para o grupo de arquitetos e artistas concretos do país. “Bill foi um dos grandes paradigmas do design gráfico e de produto, no mundo, e Wollner sentiu esse impacto ao entrar em contato com seu trabalho.”

Dois anos depois, o talento de Wollner foi reconhecido com o prêmio de jovem pintor revelação na 2ª edição da Bienal Internacional de São Paulo, pelas obras criadas no Masp. Ainda em 1953, foi indicado por Bardi para integrar a primeira turma de alunos da Hochschule für Gestaltung (HfG), escola criada pelo próprio Bill.

“Com o aprendizado em Ulm, Wollner se afastou das belas-artes, da manualidade, das artes e ofícios, e passou a se valer de apuro técnico para desenvolver seu trabalho”, relata João de Souza Leite, professor da Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Esdi-Uerj). Maria Cecília, da USP, diz que a experiência na Alemanha fortaleceu tendência pré-existente em Wollner de orientar-se pelo rigor formal e pela geometrização, evidenciando proximidade com ideias concretistas. “Wollner estabeleceu uma ponte entre o Brasil e os grandes nomes do design no mundo”, afirma a professora.

O arquiteto Francisco Inácio Scaramelli Homem de Melo, também professor da FAU-USP, explica que antes da escola de Ulm, o design era feito de maneira empírica. “Não havia uma questão teórica que embasasse o trabalho. Quem atuava com design eram pessoas com talento para o desenho e para a ilustração”, afirma Melo. O design modernista rompeu com essa produção intuitiva, ao defender que o ofício devia se basear no conhecimento teórico e na noção de elaboração de projetos. “Por causa disso, designers modernistas como Wollner se empenharam em criar escolas”, explica.

Símbolo de modernidade
Após retornar ao Brasil, em 1963 Wollner fundou a Esdi – junto com Karl Heinz Bergmiller, seu colega em Ulm –, a primeira escola de design de nível superior do país. A criação da instituição era um projeto do então governador Carlos Lacerda (1914-1977) e do secretário de Educação Carlos Flexa Ribeiro (1914-1991), ex-diretor-executivo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) e foi financiada com recursos estaduais. “A Esdi funcionou como símbolo de modernidade e marcou a profissionalização do design no Brasil”, explica Souza Leite. Em 1975 a escola foi incorporada pela Uerj. Wollner lecionou na Esdi até meados dos anos 1980. Souza Leite foi seu aluno em 1965 e lembra como, até o final da vida, o designer defendia seus pontos de vista com veemência. Para ele, era preciso separar o design da arte e do ofício artesanal. Além disso, em uma visão que se baseava em sua formação na escola alemã, Wollner afirmava que o design devia ser utilizado para a produção em série e em larga escala, e não apenas para boutiques.

Após os estudos na Alemanha, Wollner também elaborou numerosos projetos de identidade visual. Em 1958, em parceria com o fotógrafo Geraldo de Barros (1923-1998), o designer Ruben Martins (1929-1968), o publicitário Walter Macedo e Bergmiller, criou um dos primeiros escritórios modernos de design no Brasil, o Forminform. Souza Leite explica que o grupo passou a atuar de acordo com os ensinamentos da escola de Ulm, utilizando abordagem técnico-científica do design, e incorporando esses conceitos à criação da identidade visual de marcas, à publicidade e a projetos gráficos para jornais. São dessa época o design das latas de sardinha Coqueiro e a identidade visual dos elevadores Atlas, por exemplo.

Souza Leite explica que como parte dos aprendizados em Ulm, os trabalhos de Wollner são marcados por desenhos feitos com o uso de compasso, esquadro, régua, triângulos, quadrados e círculos. “Quase todos os desenhos que ele fez foram desenvolvidos a partir de noções da geometria regular.” Wollner presenciou a “libertação” desses instrumentos quando os computadores começaram a ser usados na profissão. “Ainda assim, ele continuou com os mesmos valores em seus projetos, apoiando-se em uma geometria precisa. Todos os seus trabalhos revelam essa essência”, conta.

Em seus últimos anos de vida, Wollner retomou o trabalho de pinturas construtivas, compondo gravuras impressas à partir do computador e atuava no Comitê de Programação do Museu da Casa Brasileira. Giancarlo Latorraca, diretor técnico da instituição, destaca que em 2013, ao completar 60 anos de carreira, o designer foi tema de uma retrospectiva organizada pelo Museu de Artes Aplicadas de Frankfurt: “A mostra apresentou Wollner como um dos designers mais importantes da segunda metade do século XX”.